Um longo cripto-inverno

Nos últimos anos, assistimos nas várias redes sociais a incentivos para a captação de investidores, para “investirem” em criptoactivos. Muitos eram esquemas em pirâmide. Agora, milhões de investidores sofrem perdas, mas nem entendem porquê.

A negociação de criptomoedas e seus derivados, como os NFT – Non Fungible Tokens, a utilização de alavancagem ou como colateral para outras transacções, propagou-se a uma velocidade assustadora, tendo em conta a pouca literacia financeira que existe relativamente a estes produtos a nível mundial. A maior parte dos detentores destes activos não sabe a razão pela qual os comprou, muito provavelmente porque um amigo/a ganhou dinheiro rápido e fácil.

Já os instrumentos mais simples, como os fundos, as obrigações ou acções, com horizonte de mais longo prazo e menores rentabilidades esperadas, são difíceis de compreender por grande parte da população. Mas isso não impede que a sociedade esteja a habituar-se à recompensa imediata, razão pela qual as criptomoedas conseguiram atrair bastante atenção. Mas poucos estão dispostos a gastar a sua electricidade pessoal, ou seja, o seu tempo de vida, para investir e colher os frutos mais tarde.

A democratização do acesso a este tipo de instrumentos só foi possível graças à evolução tecnológica, a redes de telecomunicações em tempo real, à energia barata e à criação da confiança entre os utilizadores. Enquanto uma parte dos utilizadores procurava uma alternativa à falta de rentabilidade do dinheiro, principalmente quando os juros eram nulos ou mesmo negativos, outros viram nas criptomoedas uma forma de financiamento de projectos, mas muito à custa da descredibilização do euro ou do dólar americano.

Esta descredibilização apenas foi possível com a anuência dos próprios bancos centrais, que deixaram que este tipo de investimento proliferasse com pouca ou nenhuma regulação. Casos como o que, esta semana, envolveu a FTX – uma plataforma de negociação de criptomoedas, onde se especula que os investidores tenham perdido até 8 mil milhões de dólares, pela utilização indevida dos fundos dos investidores aí depositados – constitui uma perda de confiança no mercado de criptomoedas, e uma aprendizagem dolorosa para muitos utilizadores.

Esta anunciada falência tem um impacto nos restantes mercados, uma vez que os investidores têm carteiras diversificadas, pelo que a falência de uma instituição tem um efeito cascata de encerramento de posições pelos demais mercados, aumentando a volatilidade e a incerteza nos mercados.

Uma ideia que até pode ser boa e inovadora, quando cria estruturas complexas, ou seja, quando começa a inventar, é porque o fim se aproxima. Ao longo dos últimos anos assistimos, nas várias redes sociais, a incentivos para a captação de investidores, com vista a “investirem” em criptoactivos, sendo que muitos eram esquemas em pirâmide. Agora, milhões de investidores sofrem perdas, mas nem entendem porquê.

Face à subida dos juros e remuneração das moedas tradicionais, o custo de oportunidade do investimento neste tipo de activos aumenta, principalmente quando temos obrigações com um grau de investimento que apresenta taxas de rentabilidade até 7% ao ano nos próximos oito anos. Os bancos centrais, que tentam recuperar a sua credibilidade à custa da subida dos juros, criaram as condições perfeitas para o que pode ser um longo cripto-inverno.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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