Um Natal sem precedentes, em estado de emergência

Apesar do ‘e-commerce’ ajudar os portugueses nas compras, o Natal não está salvo. Os sectores mais afetados vão continuar em crise e as famílias serão mais contidas nas despesas.

O Natal este ano será diferente, algo que já todos esperávamos, mas ao contrário do que alguns esperavam as restrições não ajudaram a salvar o Natal e os sectores que até ao momento têm estado em crise assim vão continuar, como referem as fontes contactadas pelo Jornal Económico (JE).

“Embora esteja contra este aliviamento, penso que se vai pagar em termos de pandemia em janeiro. Em termos técnicos é que isto pode ser um desastre. As pessoas ligadas aos modelos de previsão dizem que isto pode ser uma calamidade”, garantiu ao JE João Abel de Freitas, antigo Diretor do Gabinete de Estudos e Prospetiva do Ministério da Economia.

“Apertar para aliviar no Natal é desfavorecer a evolução económica”, assegura João Abel de Freitas garantindo que o pequeno alívio de medidas nos dias de Natal “não vai trazer grandes benefícios, há restaurantes que no Natal nem vão abrir porque também há a tradição de não abrir no dia de Natal, porque também estão com a família”.

“Em termos gerais, [o Natal não será] nada que se aproxime ao ano anterior”, avaliou João Abel de Freitas que é da opinião que o final de dezembro ficará marcado por uma “miscelânea entre as zonas mais problemáticas, o norte, o sul. Vamos andar a transportar o vírus de um lado para o outro”.

Para João Abel de Freitas, existirem mais ou menos restrições serve apenas para o Governo cumprir “objetivos que são mais sociais do que económicos”.

“Apertou-se [quanto às medidas de restrição] sobretudo em cidades como Lisboa e Porto, complicou, digamos, enterrou ainda mais por exemplo o turismo e consegue-se pouco. Mesmo no Natal, algumas medidas se aliviaram, não vai trazer grandes benefícios”, afirmou João Abel de Freitas.

Por sua vez, Pedro Viana, assessor da presidência do ISEG e consultor de prospetiva, referiu ao JE que, no Natal, “basicamente os sectores que vão ser afetados serão aqueles que têm sido afetados até agora com esta pandemia”.
Acredita que a época natalícia “vai atenuar um pouco a crise económica ao nível do consumo e da procura interna e também das exportações”, em sectores que têm sido bem-sucedidos como é o caso da produção de vinho, sublinhou Pedro Viana.

No entanto, Pedro Viana destaca que as restrições que permanecem vão “agravar a crise psicológica e emocional, porque [o Natal] é muito importante para nós, portugueses”.

“Este Natal não há comparação possível [com o de anos anteriores], não vai ser salvo, mas vai ser um período um bocadinho melhor do que em meses anteriores”, afirmou Pedro Viana destacando que “há a convicção de que o próximo Natal não será igual a este. É um alento bom para os portugueses. Pensar que é só uma vez é menos duro”.

 

Cultura é um sector particularmente afetado
Dos vários sectores que vão continuar a sentir os efeitos da crise económica motivada pela Covid-19, alguns destacam-se. João Abel de Freitas mencionou o sector do turismo – “quer alojamento, quer hotéis, quer restauração, quer mesmo os outros serviços ligados ao turismo” – como um dos mais penalizados e lembrou que em “Portugal representava muito da economia”.

Defende que no Natal poderão criar pacotes para as famílias que queiram passar alguns dias fora de casa. “Este ano, como as pessoas estão com vontade de ir, e irão quer à restauração, quer à hotelaria, e como há problemas de circulação, apesar de tudo, em certa hora, penso que algumas famílias vão optar por ir para os hotéis e fazem lá tudo pelo menos durante dois ou três dias”, referiu João Abel de Freitas.

O mesmo não poderá ser feito na cultura cujos efeitos da crise têm resultado em manifestações e protestos. “A cultura é um sector que atravessa uma crise tão grande como o turismo, ou ainda maior e emprega muita gente”, realçou João Abel de Freitas destacando que “as empresas de eventos, os espetáculos, o teatro, os festivais de música estão numa situação em que alguns [trabalhadores] passam fome. Estão a pedir dinheiro aos colegas para poderem sobreviver”.

A perspetiva de que, este Natal, a cultura sai especialmente prejudicada é igualmente defendida por Pedro Viana. “As atividades circenses nesta altura conseguem mais afluência do que têm tido e de certeza que vão ser afetadas especialmente nesta data”. “Há muitas famílias para quem a ida ao circo é uma constante anual”, lembra Pedro Viana que acredita que este ano “é possível que nem tenhamos circos para isso”.

 

Um Natal mais eletrónico
O outro lado da pandemia é que as pessoas até podem andar menos pela rua e mais pela internet. Algo que fez crescer alguns sectores ou subsectores da economia.

“Pontualmente, haverá bastantes vendas e não só nos centros comerciais, mas neste comércio de bairro e nessas lojas de maior dimensão”, prevê João Abel de Freitas. Além das vendas pontuais, “uma coisa que está a acontecer e que também significa uma mudança de hábitos é que o comércio eletrónico está a aumentar, quer em quantidade de produtos comprados, quer em valor”.

Uma mudança motivada pelas “pessoas que estão em casa” e que será uma mais-valia para as famílias que atualmente têm de passar mais tempo nos seus lares devido ao recolher obrigatório.

Pedro Viana salienta que “as pessoas procuram mais conforto em casa por aí passarem muitas horas”. Assim, “o comércio eletrónico é um daqueles impactos transversais a todos os sectores e veio para ficar”. Já tinha um pequeno espaço e a tendência será a de continuar a crescer.

“As casas mudaram muito, neste momento a casa das pessoas é também escritório. Toda a gente começou a fazer as compras a partir de casa”, ressalvou Pedro Viana salientando que “o tempo médio que uma pessoa passa em casa teve um aumento brutal”.

O Natal ficará marcado também pelas “entregas de refeições ao domicílio, entrega de encomendas, serviços de streaming, tipo Netflix, mas também plataformas de videoconferência”, formatos que têm sido populares durante toda a pandemia. “O número médio de horas que as pessoas estão online e a usar aparelhos eletrónicos tem aumentado”.

A internet vai ajudar, mas, segundo Pedro Viana “com esta pandemia nada conseguirá salvar o Natal”. Entre os artigos mais populares do e-commerce, Pedro Viana destacou os artigos de decoração, mas também roupa desportiva.

“Todas as crises trazem oportunidades e por isso há sempre empresas que saem a ganhar” referiu Pedro Viana que não deixou de lembrar que o impacto do e-commerce foi mais positivo para uns do que para outros.

Enquanto algumas empresas já utilizavam plataformas online, outras não estavam tão habituadas a fazê-lo. Assim, este último grupo sentiu os “impactos negativos” do e-commerce, como sublinhou Pedro Viana. “O investimento para estar no mercado do e-commerce foi enorme, pois não se cria um website ou plataforma de um dia para o outro”.

 

Portugueses mais poupados no Natal e durante toda a pandemia
Pedro Viana recorda os meses marcados pela pandemia e até o momento atual, que antecede as festas natalícias e enaltece os “níveis de poupança recorde. Os portugueses estão a poupar mais do que era normal e apresenta duas justificações. A primeira é involuntária, porque têm mesmo de poupar com o confinamento e as restrições do recolher obrigatório, A segunda deve-se a terem menos tempo para comprar da forma tradicional”. Uma poupança que promete alargar-se ao Natal.

“Esta pandemia é tão nova e tão disruptiva que leva à poupança para fazer face à incerteza que encontramos neste momento”, assegurou Pedro Viana, acreditando que a mudança de hábitos veio para ficar. “No período pós pandemia, as pessoas já têm consciência que podem viver com menos e que tanto o consumo como a produção deve ser feito de forma responsável”.

“É preciso ver como se vai restruturar a economia, estou convencido que há poucos projetos”, frisou João Abel de Freitas apontando que “o português não é uma pessoa muito planificadora, é uma pessoa do desenrasca e uma coisa destas não se faz com desenrascanço”.

“É preciso ter um programa a prazo no mínimo de 10 anos e uma visão estratégica”, realçou João Abel de Freitas. Destacou o trabalho realizado por António Costa Silva, um homem que descreveu como “culto”, mas garante “que este não pode ser um teste para ficar na gaveta”.

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