“Um Otimista na América”: um país que explode em contradições

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

Marta Teives

Esta sugestão vem, naturalmente, na sequência do resultado das eleições norte-americanas do passado dia 8. São vários os relatos de viagem pelos Estados Unidos da América e alguns já surgiram nestas nossas partilhas literárias – como “América, América”, de Jorge de Sena – pelo que a escolha de hoje se deveu mais ao tom do que ao relato propriamente dito; ou seja, mais à forma do que ao conteúdo, para estarmos em linha com a votação que deu a vitória a Trump.

Jornalista e romancista italiano, Italo Calvino (1923-1985) nasceu em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália. Durante a Segunda Guerra Mundial pertenceu à resistência e, enquanto esperava emboscado na floresta, ouvia as histórias que os seus companheiros trocavam. Desta forma, viu como as fábulas funcionavam simultaneamente como repositório de sabedoria prática, ética e idealista, e como técnica para exprimir temores e esperanças. Esta aprendizagem sem dúvida que influenciou a escrita da sua obra mais famosa – “As Cidades Invisíveis” –, que deve ainda muito às “Viagens” de Marco Polo.

Graças a uma bolsa atribuída pela Ford Foundation, Calvino viajou pelos Estados Unidos ao longo de seis meses, entre Novembro de 1959 e Maio de 1960. A maior parte do tempo passou-o em Nova Iorque, a cidade de que mais gostou, que o “engoliu como uma planta carnívora absorve uma mosca”. Esteve também em Cleveland, Detroit, Chicago (a que chamou “a verdadeira cidade americana, produtiva, material, brutal”), São Francisco, Los Angeles, Nova Orleães e Savannah, na Geórgia (para ele “a mais bela cidade dos Estados Unidos”), entre outras cidades e estados.

 

capa-livro

 

Durante a viagem, encontrou-se com escritores, editores e agentes literários, com homens de negócios, sindicalistas e activistas pelos direitos civis (como Martin Luther King), mas também gente comum, “tirando o pulso” ao país. Dado o contexto actual, destaque-se a comparação que faz entre a Califórnia e o resto do país (com excepção de Nova Iorque), quando afirma que “um quarto da América é dramática, tensa, violenta, explodindo em contradições, cheia de vitalidade fisiológica brutal (…). Mas cerca de metade é um país aborrecido, vazio, monótono, de produção e consumo desmiolados, e este é o inferno americano”.

Ao regressar a Itália, começou a trabalhar nos seus apontamentos e correspondência relacionada com a viagem com a intenção de escrever um livro do género de “As Viagens de Gulliver”. Saiu este “Um Otimista na América”, agora editado em português pela D. Quixote.

Recomendadas

“Trair e Coçar é só começar” vai ter dois ensaios solidários

O público português tem a oportunidade de assistir aos últimos ensaios antes da grande estreia e apoiar, assim, duas associações de solidariedade.

PremiumPara saudar o regresso de um majestoso Jaen

Serve este texto para saudar a aposta de um produtor do Dão, a Caminhos Cruzados, integrada há cerca de dois anos no grupo da Quinta da Pacheca (no Douro), na comercialização de um monovarietal de uma das castas mais singulares que se produzem em Portugal: a Jaen (Mencia, em Espanha). Há quem diga que em relação à Jaen, ou se ama ou se detesta.

PremiumFada ou bruxa? Uma duquesa que incomoda muita gente

Sociopata narcisista”. Uma classificação nada abonatória, mas é assim que é descrita Meghan Markle por ex-funcionários do Palácio de Buckingham que trabalharam para os duques de Sussex, segundo o que é revelado no novo livro de Valentine Low, que escreve sobre assuntos reais para o “The Times”.
Comentários