Um país desigual

O poder político democrático, apesar dos seus desígnios de igualdade e desenvolvimento, não cuidou do interior, pois rende poucos votos e não tem sindicato.

O ano de 2017, que está prestes a terminar, ficou indelevelmente marcado pelos incêndios, que causaram enorme destruição e ceifaram mais de cem vidas. A dimensão do desastre motivou a solidariedade nacional, que nos deve orgulhar como comunidade, em “que as vontades trabalharam em concordância” num “momento de união moral”, como descreveu Eça a reacção da população a um outro grande desastre que comoveu o país, o incêndio do Teatro Baquet, no Porto. Mas revelou também as fragilidades de uma porção significativa do país, cujo esquecimento deve ser colectivamente assumido.

Por coincidência trágica, os incêndios ocorreram no ano em que passaram 50 anos das cheias de 1967, e tal como sucedeu nesse ano, Portugal foi confrontado com a exposição de um país que se sabia existir, mas do qual, por incómodo e embaraço, raras vezes falava. Apesar do empenho da censura, que matizou a dimensão da miséria que as cheias exibiam à nação chocada, ficou evidente a extrema pobreza em que muito portugueses viviam.

Nos incêndios deste ano, foi mostrado, felizmente sem os filtros do exame prévio – embora nem sempre com o decoro que uma abordagem ética impõe –, um país, não já miserável, mas abandonado, despovoado e envelhecido. A modernização do país foi feita com o sacrifício das suas regiões interiores, de onde há muito se foge do atraso e da falta de oportunidades. A migração para as cidades litorais e a emigração foram oferecendo as chances de uma vida melhor que o interior não consentia, deformando a paisagem humana, crescentemente desequilibrada.

Com efeito, o poder político democrático, apesar dos seus desígnios de igualdade e desenvolvimento, não cuidou de travar esta sangria de gente, pois, como foi já por muitos referido, o interior rende poucos votos e não tem sindicato. Aceitou como inevitável o abandono da agricultura que, nas vésperas da adesão à CEE, era quase medieval e tinha uma produtividade de cerca de um quarto da média europeia. A dimensão do investimento necessário para a sua modernização e a oposição de alguns Estados-membros ao aumento da concorrência no sector, demoveram as autoridades de desenvolver o meio rural. Temos, assim, uma actividade agrícola escassa e encanecida, com a média de idades dos agricultores em 65 anos.

Paralelamente, descurou o fomento de uma rede de cidades de média dimensão, não as dotando de suficiente dinamismo para evitar o êxodo – que se verifica pelo menos desde o século XIX – e atrair novos habitantes. Pelo contrário, tem tomado ao longo dos anos decisões em sentido contrário, ao encerrar serviços públicos, em nome da racionalidade técnica e económica, que não apenas tornam as localidades afectadas menos atractivas, como, até de um ponto de vista simbólico, revelam a descrença do Estado na sua viabilidade futura.

Se olharmos para os números no muito longo prazo, verificamos que várias cidades do interior, como Bragança, Viseu, Vila Real ou Castelo Branco não lograram duplicar a sua população entre os censos de 1864 e 2011, num período em que a população total triplicou. Lisboa, por seu turno, multiplicou por três o número de habitantes e, se lhe somarmos os que residem na respectiva Área Metropolitana, alcançamos cerca de 2,8 milhões de pessoas, numa concentração percentual de população superior à de Greater London ou à de Île de France.

Portugal modernizou-se, inquestionavelmente, o que nos deve satisfazer, porém, com deformidades óbvias. Que os incêndios deste ano sirvam para nos lembrarmos disso.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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