Um pouco de amor nunca fez mal a ninguém

A líder do CDS, Assunção Cristas, surpreendeu esta semana com um artigo no “Público”, onde defendeu que os extremismos do nosso tempo devem ser combatidos com o “radicalismo do amor”.

“Ao radicalismo do discurso populista temos de saber contrapor o discurso radical do amor: da centralidade da pessoa, de toda a pessoa, independentemente da cor da pele, da religião, do género, da orientação sexual, da idade, da profissão, dos meios financeiros ao seu dispor. O discurso radical do amor não apenas tolera ou respeita cada um na nossa sociedade, ama-o na sua integralidade e plenitude, mesmo se não compreende, e procura encontrar a concórdia”, escreveu Assunção Cristas.
Vale a pena fazer duas notas sobre estas palavras da líder centrista.

A primeira é que as mesmas revelam claramente a influência do catolicismo, o que não devia surpreender-nos, dada a a religião de Assunção Cristas e a alegada matriz democrata-cristã do CDS. O “radicalismo do amor” corresponde ao mandamento cristão “ama o próximo como a ti mesmo”. Daí que estas palavras tenham caído mal tanto a uma certa Esquerda que se diz solidária, mas nada caridosa (e “caridade” significa apenas “amor”), como a alguma Direita que frequentemente se diz cristã, mas que faz questão de separar a “fé” do “mundo”.

Na verdade, poucas ideias são tão incómodas como o conceito de amor incondicional pelo próximo, já que o mesmo implica abdicarmos do nosso ego, dos nossos interesses e até do nosso bem-estar, em prol do próximo e sem esperar algo em troca. Isto é insuportável para a esmagadora maioria das pessoas (para mais numa era de crescente individualismo), mas ainda mais para os poderosos. E é também por isso que o Papa Francisco, que volta e meia diz umas verdades incómodas a este respeito, não é bem visto em certos círculos católicos.

A segunda nota é que, por muito incompreendidas que tenham sido as suas palavras, Assunção Cristas está certa: independentemente da crença ou descrença, da ideologia ou da filiação partidária de cada um, devemos bater-nos por uma sociedade de amor e não de ódio, de exclusão e de desigualdade. O ideal do amor ao próximo é um radicalismo saudável, que faz falta ao nosso tempo. Numa época em que regressam os velhos fantasmas da intolerância, da discriminação e da xenofobia, devemos bater-nos pelo princípio de que todos os seres humanos são iguais em direitos e dignidade, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, do credo, do género ou da orientação sexual. Pode causar alguma estranheza ouvir alguém da política dizer-nos isto, mas não deixa de ser verdade.

Este é um “radicalismo” que não divide, antes obriga a fazer pontes com o Outro. É um “radicalismo” que aceita e respeita as diferenças e que permite à própria Assunção Cristas assumir-se como católica praticante e ao mesmo tempo dizer-se a favor do casamento entre homossexuais. E ao CDS estas ideias podem permitir-lhe modernizar-se sem ter de renegar a sua matriz fundadora.

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