Um verão de muitos receios

O mundo mudou mais em 2022 do que é a perceção generalizada. Daqui em diante, será mais complexo encontrar pontes para valores comuns para atingir propósitos comuns, como é o caso da descarbonização mundial, ou o caminho para um mundo mais interligado.

“Devemos repensar as nossas relações com regimes autocráticos e fortalecer as nossas ligações com parceiros que pensam da mesma forma que nós”, Paolo Gentiloni, Comissário Europeu para a Economia

À entrada de 2022, as expectativas eram de grande mudança, mas de esperança relativamente ao futuro. O mundo estava a controlar a pandemia de forma sustentada e progressiva, a reabertura das economias era um processo gerador de inflação é certo, mas de carácter transitório, e o mundo está preparado para entrar num ciclo de imenso investimento proveniente das ambições globais de transição digital e de combate sem tréguas às alterações climáticas.

Num trimestre tudo se alterou, deu-se uma enorme mudança de paradigma mas num sentido completamente diferente, marcado pelo retorno da guerra à Europa e de uma enorme “cortina de ferro” entre Ocidente e Rússia, que deixou o mundo perplexo e promete ser transformador para muitos anos das relações entre países. Mais, irá condicionar a economia e as relações comerciais, e colocar dificuldades enormes nas causas comuns do planeta, como a descarbonização, e será um potencial gerador de maiores desigualdades.

No curto prazo, o regresso da inflação traz uma sombra de recessão, sobretudo para a Europa

Neste momento, as preocupações com as perspectivas de uma recessão aumentam. Embora o nível de atividade nos EUA e na zona euro ainda seja elevado, o crescimento desacelerou significativamente, tendência que parece ampliar-se nos próximos trimestres e que deverá permanecer baixa para o restante do ano.

Essas perspectivas de recessão estão a aumentar devido a uma combinação de inflação elevada, incerteza geopolítica e aperto da política monetária, em paralelo às consequências económicas da guerra na Ucrânia, que fazem o seu caminho, e do impacte que os novos confinamentos, a queda no imobiliário e o declínio da procura mundial externa, estão a ter na economia da China.

Os bancos centrais procuram agora controlar, progressivamente, o aumento dos preços, enquanto várias medidas fiscais estão a ser implementadas para ajudar a mitigar o impacto, mas a desaceleração económica parece inevitável em 2022, sendo que, em 2023, algumas economias desenvolvidas, sobretudo na Europa, poderão registar um ciclo recessivo.

Não há soluções fáceis para lidar com o dilema entre crescimento e inflação. Subir as taxas agressivamente irá condicionar o crescimento económico, fazer o contrário; implementar estímulos monetários significa arriscar uma espiral de preços à solta durante demasiado tempo.

As medidas de incentivo fiscal deverão acabar por ter relevo, com os governos a procurarem soluções que possam suprir as subidas dos principais bens alimentares e combustíveis, mas esta é uma solução que dificilmente mitigará o efeito total da inflação, podendo, adicionalmente, colocar pressão nos equilíbrios orçamentais dos países que enfrentam ainda os impactes sobre os stocks nominais de dívida pública, que subiram, em resultado dos apoios às economias, decorrentes da pandemia.

A escalada das sanções pode trazer também impacte de maior duração para a economia global. Olhando além dos prazos mais imediatos, os efeitos de escalada das sanções poderão traduzir-se num aumento significativo dos protecionismos globais, uma espécie de grande divisão geopolítica do mundo, ultrapassável apenas com o recurso a complexos equilíbrios.

Algumas indústrias de ponta, como os semicondutores, dependentes de materiais industriais como o paládio, o níquel ou similares, indústrias de relevo globais, podem ser estruturalmente afetadas. Ou seja, quanto maior for a escalada de resposta e contrarresposta de sanções, maior a probabilidade de entrarmos num ciclo recessivo global que pode, aliás, perdurar para além do conflito militar europeu.

Um mundo mais divido pode colocar em risco compromissos globais, como as metas climáticas

Um mundo mais dividido, com maior protecionismo económico, vai intensificar as disputas pelos recursos e matérias-primas e contribuir para uma maior desigualdade – que, por sua vez, pode originar problemas entre populações, países ou blocos de interesses económicos e geopolíticos distintos, agravando tensões pelo acesso a tecnologia ou recursos, tornando mais complexa a coordenação internacional de desafios estruturantes do planeta, como o combate às alterações climáticas, e a transição para uma era de crescimento económico digital que permita não apenas a melhoria das condições de vida das populações, mas sobretudo a coesão social da sociedade.

O mundo atravessa uma corrida contra o tempo para atingir os objetivos de carbono zero. Uma combinação de fatores que, progressivamente, retirem da agenda estes compromissos, em favor, por exemplo, de uma agenda geopolítica mais imediatista, mais bélica, e numa nova corrida ao armamento – a despesa militar a nível global deverá aumentar nos próximos anos, depois da intervenção militar da Rússia na Ucrânia.

Ora, a manutenção de um mundo divido prolongado poderá fazer perdurar o ressentimento antissistema dentro das sociedades, e manter pressão a favor de um maior protecionismo e defesa dos interesses nacionalistas contra a globalização.

A desigualdade que sai da pandemia pode acentuar-se ainda mais

A pandemia trouxe consigo um cenário complexo, com as condições de desigualdade a desenharem duas trajetórias divergentes.

Nos países mais desenvolvidos, uma distribuição mais eficaz das vacinas, um programa de transformação digital da economia mais bem-sucedido e novas oportunidades de crescimento económico trouxeram oportunidades que podem criar uma perspetiva societária favorável no curto prazo (no sentido de rapidamente posicionar esses países no ponto do pré-pandemia), ao passo que muitos outros países irão ficar para trás, mais condicionados. O menor acesso a tecnologia ou a incapacidade do Estado de investir na transição digital, bem como o sobre-endividamento, podem gerar mercados de emprego estagnados e maiores problemas sociais.

Esta divergência só poderá acentuar-se mais daqui em diante, caso se mantenha um crescente caminho para uma grande divisão geopolítica entre dois mundos, com a ascensão do protecionismo comercial e o aumento das disputas pelos recursos naturais. Muitas das economias que utilizam combustíveis fósseis poderão ter efeitos geopolíticos dissuasores na transição energética e digital. Esta é, afinal, uma transição que em muitos países terá um impacte muito elevado no que diz respeito ao mercado de emprego, colocando, potencialmente, milhões de trabalhadores no desemprego, um efeito negativo extremamente complexo de gerir.

A manutenção desta grande divisão mundial poderá ter implicações sociais e humanitárias. Por exemplo, o aumento da pobreza extrema, ou o aumento significativo da imigração proveniente de países pobres, incapazes de preparar as economias para uma transição criadora de valor económico, e que deverão, por isso, registar percas de rendimento e possível agravamento das tensões sociais.

‘Bottoms up’: um verão de muitos receios

O mundo mudou mais em 2022 do que é a perceção generalizada, e pode perdurar além do conflito militar que hoje tem lugar no centro da Europa. Além disso, comporta muitos desafios para a comunidade internacional a médio prazo. Doravante, será mais complexo encontrar caminhos e pontes para valores comuns para atingir propósitos comuns, como é o caso da descarbonização mundial, ou um caminho para um mundo mais interligado.

A criação de um mundo mais dividido entre Ocidente e Oriente poderá gerar um bloqueio a um acesso mais livre a tecnologias mais limpas, e a menos capital para projetos sustentáveis (ou seja, ESG) devido a possíveis restrições de investimento a países e regiões sancionadas. Por sua vez, este acesso mais restrito a tecnologias limpas poderá gerar menores incentivos para a descarbonização e maiores incentivos às disputas por recursos naturais e, consequentemente, aumentar possíveis tensões geopolíticas e conflitos armados.

Olhando mais de perto, para já, o impacto maior desta nova “cortina de ferro” foi o retorno da inflação elevada ao mundo desenvolvido, que irá exigir um complexo exercício de equilíbrio. Os próximos meses serão sem dúvida decisivos para moldar o sentimento crescente de que o mundo se estará a aproximar de uma recessão em 2023, mas que pode ser mais que uma contração económica. Isto é, poderá representar uma alteração de paradigma ao modelo de globalização, sobre o qual o mundo tem assente um modelo de crescimento e prosperidade, e criar um novo, que, à partida, poderá trazer um mundo mais divido e com maiores desigualdades.

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