Uma amizade demasiado complexa

Do musseque onde se vibra com a transmissão de um derbi lisboeta ao lobby do hotel na Quinta da Marinha onde são desenhadas lucrativas negociatas, a amizade entre Portugal e Angola é vivida de forma intensa e única.

Nenhum dos dois ‘amigos’ tem outra amizade desse tipo. Talvez tenha sido por isso que, como referiu João Lourenço, algo falhou na relação nos últimos nove anos.

Pode parecer estranho classificar a relação entre um país colonizado e o seu colonizador como uma amizade. Os fantasmas do passado pré-independência não desapareceram, claro. É impossível que tal aconteça em pouco mais de quatro décadas, mas, neste tempo, a relação evoluiu.

Durante a longa guerra civil angolana, a relação foi sempre algo surpreendente. Um dos partidos do arco do poder em Portugal (o PS) apoiava os rebeldes da UNITA (armados pela África do Sul do apartheid e os EUA), enquanto o outro (PSD) esteve sempre mais próximo do MPLA, que tinha como suporte a comunista União Soviética.

Com a vitória militar do MPLA em 2002 e o processo de reconstrução do país, a relação tornou-se mais direta entre os dois Estados e mais próxima daquilo que Lourenço chamou de amizade. O petróleo angolano foi o combustível para acelerar as ligações económicas. Se essas ligações tivessem evoluído no campo meramente comercial, porventura as falhas na amizade teriam sido evitadas.

Mas por necessidade, estratégia e arrisco dizer alguma ganância, a relação intensificou-se também no campo financeiro. A construção de uma complexa rede de participações cruzadas, em empresas importantes nos dois países e com o envolvimento de cotadas portuguesas, a poderosa Sonangol e familiares e empresários próximos do antecessor de João Lourenço, veio complicar a amizade.

Mergulhado numa crise profunda, Portugal recebia de braços abertos o investimento angolano, fechando os olhos a riscos e eventuais irregularidades. Milhares de empresas e trabalhadores portugueses olhavam e iam para Angola. O país era uma autêntica tábua de salvação que oferecia receitas e salários chorudos. Na Av. da Liberdade, as marcas de luxo enchiam as caixas com petrodólares. Ao nível dos Estados, a amizade parecia renovada e fortalecida. O jogging de José Sócrates na baía de Luanda foi um momento de marketing puro da saúde da relação e José Eduardo dos Santos foi recebido em Lisboa já com o estatuto informal de um dos Donos Disto Tudo.

No entanto, os problemas não tardaram a aparecer. Em Portugal, começaram a ouvir-se vozes a questionar a origem dos fundos privados angolanos. Seguiram-se investigações judiciais sobre o comportamento de alguns líderes políticos e empresariais, algo que caiu mal em Luanda e levou Eduardo dos Santos a dizer, em 2013, que a relação não estava bem.

No ano seguinte, os ciclos inverteram-se, com a queda abrupta do preço do crude a empobrecer os cofres angolanos e Portugal a sair do sufoco do resgate. À questão do ‘irritante’ juntou-se a das dívidas angolanas às empresas portuguesas. A chegada de Lourenço à presidência angolana veio trazer fôlego à relação. O caso ‘irritante’ parece estar ultrapassado e a questão das dívidas a ser negociada.

Parecem ser estas as grandes conclusões da visita de Lourenço a Portugal. Mas o presidente angolano apelou também aos empresários portugueses para investirem em Angola. Não querendo ser inimigo do business ou da saudável cooperação, talvez fosse melhor deixar os ânimos entre os dois amigos assentarem um pouco antes de intensificarem de novo a relação de forma rápida e desordenada. Não digo que se tenha de levar à letra o provérbio: “amigos, amigos, negócios à parte”. Mas os amigos têm de ser amigos e não um casal arrastado por uma atração fatal. É só preciso um momento de calma antes que um deles se irrite de novo.

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