Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.

A banca portuguesa está, para já, relativamente tranquila face ao contexto adverso que se espera para o próximo ano. Embora seja de esperar um aumento do crédito malparado, devido à subida das taxas de juro, os bancos portugueses estão melhor preparados para esse cenário do que estavam na última grande crise. Nos últimos anos, os bancos portugueses reforçaram os seus rácios de capital, adotaram políticas de concessão de crédito mais conservadoras e implementaram dolorosos processos de reestruturação.

Por outro lado, a normalização a que estamos a assistir na política monetária, com a subida das taxas de juro, permitirá à banca regressar ao modelo de negócio que constituiu a sua razão de ser durante séculos: receber as poupanças dos clientes para de seguida conceder crédito, ganhando com a diferença entre os juros pagos nos depósitos e os cobrados nos empréstimos. A margem financeira volta assim a ser determinante para os resultados.

Porém, apesar do impacto positivo da subida dos juros na margem financeira, os desafios que se colocam ao sector continuam a ser muitos, desde o surgimento de novos concorrentes digitais às obrigações que o sector terá de cumprir na área do ESG. Neste contexto, a necessidade de movimentos de consolidação à escala europeia é clara, incluindo no mercado português, sendo de esperar a ocorrência de fusões entre instituições, incluindo bancos de grande dimensão.

Olhando para o mercado português, temos cinco grandes bancos – CGD, Santander Totta, Millennium bcp, Novobanco e BPI. O primeiro, a Caixa, pertence ao Estado e em condições normais não deverá participar em eventuais movimentos de concentração. O Santander, por sua vez, tem uma quota de cerca de 20%, o que o deixa confortável no mercado português. Os seus líderes têm afirmado que nesta fase o banco prefere crescer de forma orgânica, mas não se deve excluir à partida um eventual interesse no Novobanco, quando este for colocado no mercado pelo Lone Star.

O Millennium bcp, o maior banco privado com sede em Portugal, será um candidato natural a participar em movimentos de consolidação, à semelhança do que fez inúmeras vezes na sua história. Porém, terá o BCP uma estrutura acionista disposta a isso, tendo em conta que tanto a Sonangol como o grupo chinês Fosun parecem ter outras prioridades?

Restam o Novobanco e o BPI. O primeiro será, mais tarde ou mais cedo, colocado no mercado, eventualmente através de uma colocação em bolsa, sendo de prever que participe no processo de consolidação do sector em Portugal. Já o BPI, ou melhor, o seu acionista catalão CaixaBank, será a grande incógnita. Ao contrário do Santander e do BBVA, que são bancos espanhóis de capitais privados que têm alcance global e importantes atividades fora da Europa, o CaixaBank é detido por uma fundação catalã e, até ao momento, encarou a Península Ibérica como a sua prioridade estratégica. Uma fusão entre o BPI e o Novobanco poderia fazer sentido à luz dessa estratégia.

O desfecho do processo de consolidação da banca portuguesa, que muitos analistas consideram inevitável, irá provalmente depender daquela que vier a ser a estratégia do CaixaBank para o mercado ibérico. Em todo o caso, o mais provável é que a banca portuguesa se torne cada vez mais ‘ibérica’, leia-se espanhola.

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