Uma década que começa

Importa olhar para o futuro decénio com a vontade de melhorarmos o que está no bom caminho e de mudarmos o que não está.

A escassos dias do Natal, é fácil esquecer que 2020 está aí à porta. Os últimos dez anos não foram “pêra doce”, como se costuma dizer. Não falo pessoalmente, refiro-me ao que aconteceu no país e com o país.

Em 2010, era primeiro-ministro José Sócrates, pouco depois deixaria de o ser e de seguida ver-se-ia envolvido num dos processos legais mais complexos da Democracia portuguesa, cujo final não se avista ainda. Ao governo do PS seguir-se-ia a coligação PSD/CDS-PP, ou mais concretamente, o governo encabeçado por Pedro Passos Coelho e apoiado e constituído por Paulo Portas, e a intervenção da Troika.

Depois, veio um novo governo do PS liderado por António Costa e apoiado por bloquistas, verdes e comunistas. E, finalmente, chegámos ao segundo governo de António Costa num panorama de apoios e estratégias diferente de 2015, e uma composição parlamentar distinta daquilo a que nos habituámos.

Este resumo do espectro político português dos últimos dez anos serve para nos lembrarmos que, durante este período, muito aconteceu. Dentre as coisas mais importantes, figura seguramente a luta contra uma crise económica que nos impactou de forma ainda difícil de avaliar.

Governos à parte, decisões executivas à parte, assim como clubismos partidários e preferências ideológicas à parte, cada vez que são referidos os problemas no sistema nacional de saúde, os problemas da produção nacional (que não estão desligados dos salários), da educação, das condições de vida dos portugueses e das nossas expectativas, não consigo deixar de pensar que o furacão que nos atingiu com a crise económica continua a perpetuar os seus estragos. E, às vezes, talvez seja importante pensarmos nisso para que possamos ser melhores. Melhores a avaliar, a agir, a pensar naquilo que nos rodeia.

Custa-me fazer futurologia e logo avaliar os resultados do Governo hoje em funções porque, para o bem e para o mal, esses resultados são fruto de um passado mais ou menos distante, de acordo com o que consideremos na nossa análise: se infraestruturas, instituições, ambas mais duráveis e menos voláteis, se impactos mais imediatos. Mas, mesmo assim, importa olhar para o futuro decénio com a vontade de melhorarmos o que está no bom caminho e de mudarmos e reformularmos o que não está.

De acordo com as estatísticas, parece que estamos melhor do que em 2015. Se assim for, iniciamos esta nova volta ao sol, e talvez as outras nove, numa melhor casa de partida. Diz-se que esta nossa alma lusitana é muito pessimista e conformista. Eu tendo a discordar, mas há que reflectir com tempo naquilo que precisa ser mudado, como, por exemplo, o sistema político, a representação, a tomada de decisão. Para isso, precisamos que a avaliação das políticas públicas portuguesas seja melhor, mais direccionada por análises de cariz científico.

A melhoria do país está nas mãos de todos, mas as ferramentas que ajudam a tomar melhores decisões não estão. Depois de entendermos isso e de passarmos à prática talvez consigamos ter uma década menos “tremida” para todos, em geral. Agora, para cada um em particular, e porque ainda se vive a azáfama do Natal de 2019, votos de Festas Felizes!

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

Recomendadas

Sistema financeiro responde ao desafio da transição climática

1. Qual a importância do sistema financeiro e dos bancos em particular para fomentar a transição climática?

Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.

As pessoas não podem ficar para trás na nova era

Milhões de euros de investimentos e centenas de megawatts. Ao escrever e ler sobre o mundo da energia, é normal que os grandes números sejam abordados, tal a dimensão dos projetos.
Comentários