Uma Europa dependente de economias externas?

A UE definiu um plano que visa a redução da dependência da Europa face à Ásia, que inclui seis áreas estratégicas: matérias-primas, baterias, ingredientes farmacêuticos ativos, hidrogénio, semicondutores e tecnologias de nuvem.

É um facto que qualquer ocorrência extraordinária pode vir a despertar e acentuar pontos fortes e pontos fracos, não sendo as economias uma exceção. Desde março de 2020 que fomos postos “à prova” com uma nova realidade, a pandemia em que vivemos. Esta ocorrência fora do normal veio acentuar um problema da Europa atual. Certamente que a globalização facilitou as mais diversas formas de comércio e permitiu a otimização dos fatores produtivos através de preços mais competitivos, seja de componentes ou mesmo do produto em si. No entanto, num cenário estável, uma economia pode perder a noção do quão dependente está do exterior.

A combinação de uma Europa focada na sua otimização, juntamente com uma pandemia que conseguiu parar o mundo, salientou então as fragilidades já existentes.

Ainda está bastante presente na memória de todos nós o início desta era pandémica, e a escassez de materiais de apoio e prevenção que a Europa sofreu. Tanto máscaras como gel desinfetante passaram quase a ser um bem essencial, e seguindo a famosa lei da oferta e procura, apenas se encontrou um preço de equilíbrio extremamente elevado. A Europa estava extremamente dependente do exterior para este tipo de materiais.

No que respeita aos avanços tecnológicos, estes têm vindo a criar uma enorme procura de semicondutores, nomeadamente por parte de construtores automóveis e empresas tecnológicas, entre outros. Ora, a escassez destes componentes fez com que várias empresas tivessem de rever as suas projeções para anos futuros. Talvez um papel europeu de liderança na globalização face a uma crescente necessidade fosse benéfico para reduzir a dependência externa e promover o crescimento económico.

Por outro lado, a Europa conseguiu inverter o papel de dependência que tinha face a um dos bens mais procurados atualmente, as vacinas. Desde estar completamente dependente de outros países produtores de vacinas, com pressões por parte da Comissão Europeia para cumprir prazos, a tornar-se um dos maiores produtores de vacinas no espaço de um ano e meio. Isto mostra a capacidade de adaptação que a União Europeia (UE) tem quando a situação é gerida de forma correta.

A União já estava ciente de que a China é um player extremamente dominante das cadeias de abastecimento, e tinha como plano reduzir essa dependência e criar uma nova autonomia estratégica.

A preocupação em impedir aquisições por empresas estatais de outros países, juntamente com a preocupação face à carência de determinados materiais, fez com que a UE viesse a definir um plano que pretende eliminar estas ameaças. O plano visa a redução da dependência da Europa face à Ásia, com especial enfâse na China, e inclui seis áreas estratégicas: matérias-primas, baterias, ingredientes farmacêuticos ativos, hidrogénio, semicondutores e tecnologias de nuvem.

A Comissão Europeia tem como objetivo uma Europa que consiga agir de forma autónoma quando  necessário, propondo “juntar recursos e construir cadeias de abastecimento alternativas, mais fortes e diversificadas”.

Será que as medidas a ser tomadas conseguirão transformar uma Europa dependente numa Europa mais autónoma? O papel dominante na globalização é extremamente importante para a prosperidade de uma economia. A União Europeia já conseguiu provar que é capaz de o ter, resta agora esperar pelo futuro para sabermos o desenvolvimento da situação.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o ITIC, o grupo de estudantes que integra o Departamento de Research do Iscte Trading & Investment Club.

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