Isabel II: uma rainha para a eternidade

Ao cabo de várias décadas de reinado, Isabel II soube preservar o essencial da monarquia britânica, que só os seus filhos e os seus netos haveriam de verdadeiramente colocar em causa. O seu desaparecimento deixa a instituição numa encruzilhada: manter a tradição ou modernizar-se. O mais provável é que mude qualquer coisa, na expectativa de que tudo fique na mesma.

Há quase cem anos que 1926 já passou à história, mas Elizabeth Alexandra Mary, a rainha Isabel II, que nasceu a 21 de abril desse longínquo ano, só agora faz o mesmo, deixando um lugar que moldou à sua personalidade – sem contudo esquecer os fundamentais das suas obrigações – e que nunca mais será o mesmo. A sua incontestada autoridade no quadro das suas obrigações políticas – que basicamente eram as de estar nos bastidores – mas também no da devoção popular não sofreu qualquer abalo, mesmo quando foram postas à prova.

A aura de proximidade com os britânicos conseguiu-a Isabel II quando, ainda muito jovem, durante a II Grande Guerra, não abandonou as ilhas britânicas – tendo inclusivamente servido na retaguarda, circunstância que a fez não só aprender a conduzir camiões, como a conseguir rudimentos de mecânica automóvel.

Já antes, o destino tinha jogado a seu favor: Isabel Alexandra Mary ocupava apenas a terceira posição na linha de sucessão ao trono depois do seu tio Eduardo, Príncipe de Gales, e do seu pai. Ninguém esperava que Isabel subisse os degraus que lhe faltavam até ao trono, mas o certo é que o seu tio Eduardo VIII abdicou após insistir em casar-se com Wallis Simpson, uma divorciada, o que o obrigou a retirar-se.

Assim, o Duque de Iorque, seu pai, tornou-se rei com o nome de Jorge VI e Isabel passou para a ser a herdeira – situação que não perdeu porque os pais não tiveram entretanto um filho varão.

E se Eduardo VIII desistiu de tudo por amor, Isabel II também tem bastas histórias para contar nesse capítulo. O seu noivado com Filipe da Grécia e Dinamarca foi anunciado oficialmente em 9 de julho de 1947, mas desagradou a uma parte substancial dos britânicos. Desde logo, porque eram primos próximos, e depois porque Filipe era uma espécie de ‘pobre’ (não tinha reino), era estrangeiro e tinha irmãs casadas com nobres alemães com ligações ao regime nazi. Filipe teve de renunciar aos seus títulos grego e dinamarquês, converteu-se da ortodoxia grega para o anglicanismo e adotou o estilo ‘tenente Filipe Mountbatten’ que só desapareceria muito depois, com a sua morte em 9 de abril do ano passado.

A vida de uma monarca britânica não será por certo um lugar de aventuras, nem ninguém está à espera que seja ocupado por alguém que quer assumir um destino diferente daquele que está antecipadamente inscrito nos cânones. O facto de, ao longo de toda a sua vida, os seguir sem desvios de maior e de os cumprir sem que para isso demonstre um grande esforço, terão sido o cimento da posição que Isabel II soube construir ao longo de décadas.

É claro que essa vida é também uma clausura: ninguém sabe sem dúvidas o que pensa Isabel II da entrada do Reino Unido na CEE, do Brexit, dos Acordos de Sexta-feira Santa, por que equipa de futebol ‘veste a camisola’, se preferia os Beatles a Edward Elgar ou se gostava de experimentar passear numa praia deserta. Para Isabel II, o deserto nunca foi uma opção e a solidão não mais que um estado de alma. A sua vida – muito mais que a de alguns dos seus antecessores, e nem todos foram Henrique VIII – permanecerá para sempre inescrutável e misteriosa. Ou um desperdício, como diriam os republicanos do fim do século XIX.

Neste contexto em que a previsibilidade é o mais precioso de todos os bens, seria pelos avatares dos filhos e dos netos que Isabel II, e com ela toda a instituição monárquica, seriam colocados à prova. E foram-no com dureza.

A primeira vez que isso sucedeu foi com a morte da princesa Diana – a princesa do povo, como lhe chamou alguém com pouca queda para cognomes – antecipada pela duvidosa capacidade do seu marido, o príncipe de Gales, Carlos, em escolher a sua companheira de sempre. Mais tarde, foi a vez do duque de Iorque, Eduardo, demonstrar ter ainda menos sensibilidade para encontrar amizades. No meio disso, foi a vez do neto, o príncipe Harry, desertar da família, das obrigações e do país e ir para um lado qualquer – que por acaso era um programa de televisão conduzido por Oprah Winfrey, uma apresentadora que conseguiu fazer ascender a coscuvilhice mais pura à circunstância de acontecimento político.

De todas as vezes, os detratores da monarquia britânica – e há que recordar que, no reino Unido, não só não são muitos como até já foram mais – recarregaram baterias e fizeram-se à carga apontando o fogo contra o palácio de Buckingham. Apesar das suas paredes seculares, o palácio resistiu e os britânicos parecem muito confortáveis com isso.

Mas ninguém duvida que uma coisa é a rainha Isabel II outra muito diferente é quem a vier substituir. A linha de sucessão é clara: Carlos, Príncipe de Gales, está no topo, seguidos do príncipe Guilherme, Duque de Cambridge, seu filho mais velho. Sabendo-se como os britânicos detestam não seguir os protocolos – pelo menos nestas coisas – não é de esperar qualquer surpresa – mas os analistas acreditam que Carlos, que já tem 73 anos, pode vir a abdicar em favor do filho Guilherme.

Seja quem for que vai substituir Isabel II, esse alguém estará necessariamente sob os holofotes porque terá nas mãos um dilema de resolução difícil: manter a aura tradicional da monarquia britânica – e por isso deixá-la resvalar placidamente para a irrelevância – ou abrir uma fase de renovação que a possa trazer para a modernidade, o que é um risco a prazo e sem qualquer possibilidade de controlo de danos colaterais. Claro que há ainda outra alternativa: fazer de conta que se muda tudo para ficar tudo na mesma – e por certo essa será a escolha que os britânicos estão à espera que a sua casa real faça.

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