Uma União Europeia enfraquecida

Quando olhamos para o mundo, ainda que sem grandes cuidados analíticos, na perspetiva da geopolítica e da geoeconomia, ficamos com a clara perceção de que existem países e regiões em franca expansão e outros em aparente estagnação. Uma análise estratégica estruturada poderá contestar parcialmente essa perceção e introduzir critérios de moderação nas conclusões obtidas, mas […]

Quando olhamos para o mundo, ainda que sem grandes cuidados analíticos, na perspetiva da geopolítica e da geoeconomia, ficamos com a clara perceção de que existem países e regiões em franca expansão e outros em aparente estagnação.
Uma análise estratégica estruturada poderá contestar parcialmente essa perceção e introduzir critérios de moderação nas conclusões obtidas, mas não conseguirá infirmá-la.
Resulta claro que países como a China ou a Rússia têm estado, paulatinamente, a assumir, no campo económico, militar e político, uma preponderância crescente que é inversamente proporcional à dos países de uma enfraquecida União Europeia.
Este enfraquecimento da União Europeia não se deve ao facto de continuar a ser um “anão” político-militar, nem aos problemas específicos que a assolam, nomeadamente o seu alargamento excessivo e a falta de aprofundamento, o difícil momento económico que atravessa, a estagnação populacional, a excessiva imigração, a dificuldade de integração de certas comunidades, entre outros.
O enfraquecimento da Europa deve-se à ausência, ao nível da União, bem como dos Estados, de três elementos de um triângulo virtuoso, garantia habitual da supremacia das potências: Liderança, Estratégia e Inteligência.
Com todas as limitações que países como a Rússia e a China possam ter, atualmente, possuem esses três aspetos razoavelmente bem definidos. Possuem lideranças fortes, uma perspetiva estratégica bem definida a partir de um núcleo de valores razoavelmente identificados e desenvolvem os seus processos de inteligência em função disso mesmo.
A União Europeia, pelo contrário, carece dos três elementos. E pior, carece dos mesmos na dupla perspetiva da União e dos Estados que a compõem, com exceção de um.
No passado tivemos momentos em que as dinâmicas de liderança e estratégia de alguns Estados (nunca um só) se impuseram à União, mesmo quando essas dinâmicas eram apenas emanações dos propósitos das potências que a integravam. Tivemos outros momentos em que o ideal da União se impôs aos Estados, tendo sempre como consequência um determinado reforço da construção europeia. No entanto, nunca tínhamos tido uma situação em que apenas um Estado-membro, a Alemanha, o único com uma liderança forte e com a sua estratégia identificada, pudesse tentar definir os destinos da Europa unida.
Refiro esta situação, aparentemente paradoxal, porque a liderança alemã não é uma liderança europeia, antes pelo contrário, é uma liderança e uma estratégia nacional de índole defensiva, porque desconfiada dos seus principais aliados, face ao momento de crise económica, que tenta impor-se a uma União que não a aceita, contribuindo, assim, para o enfraquecimento do conjunto.
Aceito a crítica de que possa padecer de um erro de perspetiva provocado pela minha própria experiência pessoal. Em certa medida sou ainda um produto do pensamento geopolítico da Guerra Fria. Passei anos a estudar essas duas potências, a Rússia e a China, da respetiva evolução histórica ao pensamento estratégico, da política externa à atuação dos seus serviços de informações, bem como a condução da política de comunicação e informação. Mas, talvez por isso, quando vejo determinadas movimentações, tendo a ter perspetivas diferenciadas sobre o que é mero investimento económico ou diferentes lógicas de cooperação e política externa. Defeito meu, certamente. Mas tento não me esquecer que este ainda é um mundo de potências em competição e que essa competição, tendo um fito económico, não tem assim tantas regras comuns; e tem inerente um conflito, visando a obtenção de poder, que é prosseguido com meios que ultrapassam em muito os meios económicos.

Jorge Silva Carvalho
Consultor especialista em inteligência competitiva e estratégia

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