Utilizadores de telemóveis tornaram-se “caracóis humanos a carregar as suas casas nos próprios bolsos”, diz estudo

“Este comportamento e a frustração, deceção ou mesmo ofensa que pode causar é o que chamamos de ‘morte da proximidade’. Estamos a aprender a viver com o risco de que, mesmo quando estamos fisicamente juntos, podemos estar sozinhos social, emocional ou profissionalmente”, sustentou Daniel Miller.

Cristina Bernardo

Um novo estudo do centro de investigação UCL determinou que os utilizadores de smartphones têm a tendência a ignorar amigos e familiares com quem estão enquanto usam o dispositivo móvel, revela o “The Guardian”, com a grande parte dos indivíduos a admitir que estes são agora uma nova casa.

Segundo o mesmo estudo citado pela publicação britânica, os utilizadores de telemóveis tornaram-se “caracóis humanos a carregar as suas casas nos próprios bolsos”.

A equipa de antropólogos responsável pelo estudo documentou o uso dos smartphones em nove países no mundo, e descobriu que as pessoas nutrem o mesmo sentimento pelos seus dispositivos móveis e pelas suas casas. “O smartphone já não é apenas um dispositivo que usamos, ele tornou-se o lugar onde vivemos”, apontou Daniel Miller, responsável pelo estudo.

“O outro lado para os relacionamentos humanos é que, a qualquer momento, seja durante uma refeição, uma reunião ou outra atividade partilhada, a pessoa com quem estamos pode simplesmente desaparecer, ‘indo para casa’ com seu smartphone”, acrescentou Miller ao “The Guardian”.

O responsável adianta que este fenómeno que se tem verificado nos mais diversos países está a levar à “morte por proximidade” quando se trata de interações cara a cara, dado que os utilizadores preferem estar ao telemóvel do que conviver com a pessoa com quem estão. “Este comportamento e a frustração, deceção ou mesmo ofensa que pode causar é o que chamamos de ‘morte da proximidade’. Estamos a aprender a viver com o risco de que, mesmo quando estamos fisicamente juntos, podemos estar sozinhos social, emocional ou profissionalmente”, sustentou Daniel Miller.

Para a mudança que se tem verificado, os investidores sugerem que a causa está nas aplicações de conversas ilimitadas como o WhatsApp, Messenger ou WeChat, apelidando-as de “o coração do smartphones“. “Para muitos utilizadores em diferentes regiões, uma única aplicação representa agora a parte mais importante que os smartphones fazem por eles”.

“Estas aplicações são as plataformas em que os irmãos se reúnem para cuidar dos pais idosos, os pais orgulhosos enviam infinitas fotografias dos seus filhos, e os migrantes falam com as famílias. São o meio pelo qual você ainda pode ser avô, mesmo morando noutro país”, afirmou Miller.

Ao contrário de outros estudos, os antropólogos concentraram-se especificamente nos adultos mais velhos, ou seja, “aqueles que não se consideram nem jovens nem idosos”.

Os investigadores compreenderam com o estudo que os smartphones se tornam uma necessidade básica no mundo. “O smartphone é talvez o primeiro objeto a desafiar a própria habitação (e possivelmente também o local de trabalho) em termos da quantidade de tempo que estamos acordado”.

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