“Vamos brincar à caridadezinha”

O pacote de ajudas anunciado mais parece um penso rápido aplicado a uma ferida que de superficial não tem nada, pois além de pontual não compensa o poder de compra que as classes médias e baixas já perderam, só neste ano, pelo contrário, se a política de rendimentos actual continuar (baixos salários e pensões, empregos precários e a par de uma elevada carga fiscal…), a perda será ainda maior no próximo ano.

Certamente, a maioria de nós ficou colada ao ecrã quando foram anunciadas as medidas do governo para contrariar a inflação que nos tem perturbado a todos. E, ao espanto inicial, ante tanta benesse e esmola, rapidamente se descodificou a manobra de ilusionismo que nos era apresentada, sobretudo no que às pensões diz respeito.

A escalada de preços continua sem carácter temporário à vista, promete mesmo estar para ficar, apesar da prometida medida da U.E. de impor um tecto de preços; o poder de compra continuará a diminuir (num ano, entre junho de 2021 e junho de 2022, decresceu cerca de 5%, e a este respeito há que relembrar que no caso dos funcionários públicos vai em cerca de 14% desde 2011); o aumento dos salários prevê-se que seja muito abaixo da inflação (em torno de 3 ou 4% para 7 ou 9%, respetivamente) e as pensões incorrem no risco de perdas significativas nos próximos anos – o governo optou por pagar metade da pensão em 2022, mas em troca… os aumentos futuros das pensões ficam hipotecados.

Não se vislumbra uma política de rendimentos para 2023 muito diferente da presente, pelo contrário, há a real probabilidade do quadro socioeconómico português (e europeu, até porque há um efeito dominó nas economias) entrar em recessão, pois não só a inflação (que também não é temporária…) atinge números alarmantes como cresce o déficit, para não falar do brutal aumento dos juros, com os rendimentos dos portugueses em queda livre…

Facto é que as medidas anunciadas para apoiar as famílias, só chegaram no início de setembro depois de outros países da U.E. já se terem adiantado, recaindo por isso uma maior pressão no governo português para contrariar os efeitos dramáticos que já se fazem sentir nos rendimentos familiares. Dirão alguns que mesmo passageiras (e enganadoras), estas medidas, são “melhor do que nada” e até já se insurgiram alguns “gestores financeiros” em tom paternalista (ou maternalista) a recomendar o gasto parcimonioso dos 125 euros, porque “os pobres não sabem gerir o dinheiro” – sim, a “caridadezinha” portuguesa tem, tristemente, este rosto moralista da “Dona Abastança” do poema de Manuel da Fonseca. Ou, relembrando José Barata Moura, por cá brinca-se – e muito – à caridadezinha: “rouba-se muito, mas dá-se prendas” e “o pobre no seu penar habitua-se a rastejar”, “fazendo da sua infelicidade o alvo dos desportistas da caridade”.

O pacote de ajudas anunciado mais parece um penso rápido aplicado a uma ferida que de superficial não tem nada, pois além de pontual não compensa o poder de compra que as classes médias e baixas já perderam, só neste ano, pelo contrário, se a política de rendimentos actual continuar (baixos salários e pensões, empregos precários e a par de uma elevada carga fiscal…), a perda será ainda maior no próximo ano. Para já, vamos auferir de mais cerca de 10 euros por mês, dividindo os 125 euros por 12 meses. Enquanto isso, pagaremos mais 13,3% no supermercado e mais 60% da renda da casa. E a agravar ainda com o aumento desenfreado dos combustíveis – um dos sectores cujos lucros dispararam mas para o qual tem faltado coragem política para tributar os lucros excessivos. Uma governação de dois pesos e duas medidas no que á austeridade respeita à semelhança de outras anteriores, de má memória colectiva.

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