Vamos lá trocar umas ideias sobre o assunto

O título desta crónica é retirado do livro do formidável escritor Mário de Carvalho, “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. A obra conta-nos a história de Joel Strosse Neves, funcionário de uma fundação, que após perder o emprego decide filiar-se no Partido Comunista. Faz isso não porque tenha descoberto que defende uma […]

O título desta crónica é retirado do livro do formidável escritor Mário de Carvalho, “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. A obra conta-nos a história de Joel Strosse Neves, funcionário de uma fundação, que após perder o emprego decide filiar-se no Partido Comunista.

Faz isso não porque tenha descoberto que defende uma ideologia baseada em valores comunistas, mas sim porque sempre ouviu dizer que “eles cuidam dos seus”. Não vou contar mais sobre a história. Quem já leu, sabe como aquilo é tudo muito bem escrito e o quão crítico o livro é. Quem não o leu, fica aqui a sugestão para que um dia o faça. Nos dias de hoje é capaz de ser boa ideia começar aprender umas coisas sobre o comunismo e a esquerda em Portugal. Nunca se sabe se não será necessário para enfrentar os próximos quatro anos. Isto, se não houver eleições antecipadas para o ano, após a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa – a não ser que haja uma surpresa nas presidenciais.

O PCP e o BE, no fundo, não são um perigo para a democracia. São partidos alinhados com o jogo democrático e respeitam leis gerais do Estado. Logo, pode vir de lá esse perigoso governo de esquerda que isso não vai fazer com que Portugal passe a ser uma Cuba da Europa. Aliás, basta ver que até em Cuba já não há “vermelhos” como antigamente. Afinal, os EUA já abriram uma embaixada e Fidel Castro ainda nem sequer morreu.

O que me espanta neste caso de uma aliança entre PS, BE e PCP é o facto de alguém pensar sequer que o PS é um partido de esquerda. O PS, fixem bem isto, nunca foi um partido de esquerda. Senão reparem: foi fundado na Alemanha em 1973. Nessa altura, a Alemanha estava dividida entre a Alemanha alinhada na NATO e a do Pacto de Varsóvia. Ora, o PS foi fundado na Alemanha do lado da NATO. Era uma organização criada em 1949 e que contou com Portugal como membro fundador. E nessa altura, Portugal era uma ditadura, onde Salazar mandava. Logo, a NATO é uma organização com um sentido prático, pois está disposta a menosprezar os valores da democracia e a permitir ditaduras no seu seio quando isso mais lhe convém. E em 1949 convinha muito ter os Açores como uma base preferencial. Em 1973, no mesmo ano da fundação do PS, a base nos Açores foi fundamental para a defesa de Israel, quando Portugal revelou-se um aliado valioso para os norte-americanos. Em 1975, um ano depois do 25 de Abril, os poderes de Washington estavam muito preocupados com o “perigo vermelho” em Lisboa. E o então embaixador dos EUA e futuro número dois da CIA, Frank Carlucci, encontrava-se com o líder do PS, Mário Soares, no último andar da residência do embaixador, na Lapa. Era onde funcionava então a lavandaria do palacete.

Portugal em 1975 era um país interessante do ponto de visto ideológico. A título de exemplo, lembro a notícia de um padre que recusou um funeral católico a uma pessoa que queria ser sepultada com a bandeira comunista no caixão. Neste caso, não sei se devo censurar um padre por recusar a cerimónia ou um comunista por querer um funeral católico. Por isso é que Portugal é um país raro e lindo. Tem esta dicotomia, onde a esquerda e a direita são coisas assim para o estranho. Como censurar alguém que se diz de esquerda e querer depois ter acesso a vícios capitalistas? Como criticar alguém que se diz de direita e exige mais direitos sindicais? Não posso. Aquilo que posso, sei, quero e devo dizer é que não estou representado nesta Assembleia da República.

Há uma divisão artificial entre “direita” e “esquerda”, mas aquilo é tudo igual. Um PCP a sério e um BE que fosse mesmo de esquerda nunca se iria aliar a um PS fundado na NATO e apoiado pela CIA e que no passado já esteve coligado com o mesmo PSD e CDS com que agora António Costa não consegue aliar-se.

Por Frederico Duarte Carvalho, 
Jornalista e escritor

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