“Vamos ter um momento de viragem do que é o SNS”

Há uma espécie de CEO no Serviço Nacional de Saúde. Com problemas identificados e a evidência de que a envolvente só vai piorar, a Associação Comercial do Porto (ACP) quis deixar alguns conselhos a Fernando Araújo.

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) “está num momento de viragem” patrocinado pela nova unidade dedicada liderada pelo médico Fernando Araújo (já conhecido como o ‘CEO do SNS’), considera o seu colega Nelson Pereira, diretor da Unidade Autónoma da Gestão de Urgência do Hospital de S. João.

O clínico falava Ciclo de conferências ‘Projetor 2030 (Pre)visões para o Próximo Quadro Comunitário’, organizadas pela Associação Comercial do Porto (ACP), e de que o Jornal Económico é media partner. Serão seis os temas a abordar nos próximos três meses, com uma primeira paragem na área da saúde: ‘O cidadão está no centro do sistema?’.

Para Nelson Pereira, que exatamente substituía Fernando Araújo, que não pôde estar presente, o SNS “tem bons indicadores de saúde em muitas variantes: esperança de vida, mortalidade infantil, taxas líquidas de sobrevivência, índices de mortalidade, cuidados de saúde primária, doença crónica, taxas de imunização”.

Para o médico, um dos principais problemas do sector é a forte tensão que sobre ele é exercido. E que tende a piorar: “Se tivesse que escolher um problema, a evolução demográfica é o problema que mais impacta – temos 2,4 milhões de pessoas com mais de 65 anos, os piores rácios idosos/produtivos”, e a perspetiva, segundo as estatísticas, é que tudo vai ficar ainda pior até pelo menos 2050.

Neste quadro em que “a entregar cuidados de saúde vai ser cada vez pior”, não será de admirar, afirmou Nelson Pereira, “que 85% dos que têm mais de 65 anos dizem que a sua saúde é má ou muito má”. Até porque é preciso dizer que a pandemia, “os problemas com os serviços de urgência, com alarme público muitas vezes justificado, a perda de utentes com médico de família e o transversal “desencanto” de todos os profissionais que trabalham no SNS não ajudam.

Num quadro em que “o inverno que aí vem não vai ser fácil”, Nelson Pereira admite que há que ter uma esperança renovada na direção executiva do SNS. E deixou algumas prioridades. Desde logo o financiamento, sendo certo que “os tratamentos são muito mais caros, tratamos até muito mais à frente que há algumas décadas”. Ou seja, os avanços da investigação, que patrocinaram a melhoria dos cuidados de saúde e o aumento brutal da esperança de vida, colocaram uma pressão sobre o SNS que tende a ser insuportável.

Pressão não só financeira, mas também, por outro lado, de serviço: o recurso ao sistema tem índices que o transformam numa montanha difícil de gerir. A acrescentar está ainda o que é exógeno ao próprio sistema: “no Hospital de S João, no Porto, que tem um orçamento que ronda os 400 milhões de euros, vamos pagar mais 83% de eletricidade 83%” mais que no ano passado”.

Autonomia das instituições, consagrado na revisão dos estatutos do SNS, qualificação e organização dos serviços de urgência, mais cuidados paliativos e continuados, aposta na hospitalização domiciliária, cirurgia em ambulatório (para diminuir a carga sobre o sistema), são alguns dos itens em que vale a pena apostar.

Mas Nelson Pereira chamou a atenção para o fundamental: “o custo em saúde vai continuar a crescer e só será sustentável se tivermos cidadãos mais saudáveis”.

Precisamente a mesma ideia foi deixada por João Marques-Gomes, professor da Nova/SBE, para quem o segredo é precisamente esse: haver menos doentes, pelo que a ideia de base é investir em prevenção e não em ‘salvação’. Mas, até lá, é preciso fazer qualquer coisa. Por exemplo: gastar dinheiro onde a eficácia – a eficácia comprovada e não a percecionada – está mais presente. “Devíamos estar a trabalhar para não termos doentes”, afirmou.

Para isso, é preciso medir, até porque “mais não quer dizer melhor”. “Como é que pagamos os cuidados de saúde? De forma totalmente errada”, afirmou. Precisamente porque o sistema paga pelo número e não pela qualidade. Um exemplo: o sistema prefere uma unidade de saúde que opere 100 pacientes em detrimento de uma outra que opere apenas 50. Mas esquece-se de mensurar o que está a jusante da operação. E isso é que encarece o sistema.

Neste contexto, segundo João Marques-Gomes, “temos de passar de uma lógica de volume para uma lógica de valor. É preciso medir tudo o que está associado à doença”. E para que haja cada vez menos doentes nos hospitais, deixou alguns conselhos: “equipas multidisciplinares, medir e comunicar, medir e melhorar custos, pagar com base no valor e não no número”.

Também presente, Ema Paulino, da Associação Nacional de Farmácias, colocou em evidência a capacidade de as farmácias portuguesas – que assumem uma capilaridade inigualável por qualquer outra unidade do sistema de saúde – fazerem parte da solução do problema do sector em Portugal.

O farmacêutico – onde precisamente existem cada vez mais equipas multidisciplinares – são em muitas circunstâncias, principalmente no interior, a primeira linha dos cuidados de saúde. “A farmácia é ponto de partida para os cuidados primários de proximidade”, o que fica bem patente nos números: em Portugal existe uma farmácia para cada 3.500 pessoas (ou menos).

A proposta, portanto, disse Ema Paulino, é simples: instalar na rede de farmácias espaços de saúde de proximidade. Não será um médico de família, mas será com certeza a farmácia de família.

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