Vendas de portáteis em 2020 já superam números de todo o ano 2019 em Portugal

Vendas dos portáteis dispararam para níveis que não se verificavam há mais de dez anos, impulsionadas, sobretudo, pelo incentivo ao teletrabalho, segundo dados da IDC. Segundo Francisco Jerónimo da IDC, a previsão para o quarto trimestre é que as vendas cresçam na ordem dos 70%. Lenovo, HP e Asus dominam cerca de 70% do mercado.

A procura e venda de computadores portáteis está em 2020 a alcançar níveis que já não se observavam há mais de uma década. Nos primeiros nove meses deste ano, venderam-se mais computadores portáteis do que em todo o ano de 2019, segundo os dados cedidos pela consultora IDC, em primeira mão, ao Jornal Económico (JE).

No final de setembro, o mercado português registava a comercialização 467.759 portáteis, quando em todo o ano de 2019 foram vendidos 461.800 notebooks. O volume de vendas foi impulsionado pelo incentivo ao teletrabalho, que provocou um disparo nas vendas de portáteis no segundo e no terceiro trimestre, no decorrer dos efeitos da pandemia da Covid-19.

O mercado dos notebooks estava “relativamente estagnado”, mas voltou a ganhar força “pela necessidade dos consumidores em adquirir mais máquinas”, segundo explicou ao JE Francisco Jerónimo, vice-presidente associado para dispositivos para a região EMEA (Europa, Médio Oriente e África) da IDC.

“As vendas dispararam de forma como já não se via há 12 anos”, disse o especialista, sublinhando que se tratam “dos maiores crescimentos da última década”. Os dados da consultora indicam que, em Portugal, foram vendidos 197.673 computadores portáteis no segundo trimestre, o que corresponde a um crescimento de 77% face a igual período de 2019. Ora, essas vendas continuaram a crescer entre julho e setembro. No terceiro trimestre, foram vendidos 169.280 unidades, mais 29% em termos homólogos.

A previsão é que o mercado continue cresça ainda mais no quarto trimestre. Segundo o responsável português da IDC, o “forecast [previsão] para o quarto trimestre é também de 77%”.

Média de portáteis por agregado terá crescido para “três ou quatro”
Mas o que explica este crescimento? A pandemia, naturalmente, segundo Francisco Jerónimo. O responsável explicou ao JE que só se verificava um crescimento do mercado, quando havia uma necessidade ou um estímulo de “renovação de máquinas”. Ora não foi isso que aconteceu entre janeiro e setembro. O aumento da base instalada de portáteis em Portugal e no mundo teve origem nos efeitos sociais da pandemia da Covid-19.

Ou seja, o surto epidemiológico do novo coronavírus levou as empresas a enviarem os trabalhadores para casa. Dessa forma, para que o a suspensão da atividade laboral não fosse definitiva, houve um estímulo ao teletrabalho, o que fez com que a procura por computadores portáteis disparasse.

“Enquanto no caso do mercado de smartphones, as pessoas ao irem para casa e, em último caso, usarem os seus smartphones pessoais para o que fosse necessário, não houve uma necessidade de comprar novos equipamentos. Mas nos portáteis foi precisamente o oposto. Como há empresas em que os funcionários ainda trabalham com computadores fixos (desktops), muitas pessoas tiveram de comprar portáteis para trabalhar a partir de casa”, contou Francisco Jerónimo.

“Acresce que quando se trabalha no escritório há uma infraestrutura própria, que permite aceder à informação e às plataformas de forma segura. Para o teletrabalho, a pandemia levou também muitas empresas a renovar e a fazer um upgrade de novos softwares e de novos equipamentos”, complementou.

“Depois há o factor pessoal. Ao trabalhar a partir de casa, com filhos a ter aulas à distância, claramente não se podia partilhar o material que se destinava ao trabalho. Ou seja, o que aconteceu foi que muitas pessoas tiveram de comprar novos computadores. Hoje, estamos a falar de três ou quatro máquinas por família, quando essa média era antigamente de uma ou duas máquinas”, acrescentou.

Lenovo lidera mercado nacional de portáteis
O aumento da procura por computadores portáteis levou a um maior equilíbrio das vendas entre as três principais marcas do segmento notebook – Lenovo, HP e Asus, que juntas representam cerca de 70% do mercado.

Depois do grande boom nas vendas no segundo trimestre, a chinesa Lenovo continuava a liderar o mercado no terceiro trimestre. A marca tinha vendido 47.245 unidades, fixando a sua quota em 27,9% (mais 3,2 pontos percentuais em termos homólogos). A Lenovo lidera o mercado nacional desde o quarto trimestre de 2019.

A HP, por sua vez, estabilizou as suas vendas nas 34.285 unidades, o que correspondia a uma quota de 20,3% (menos 15,8 pontos percentuais em termos homólogos). Já a Asus vendeu pouco mais de 34 mil unidades, entre julho e setembro, aproximando-se dos níveis da HP, fixando a sua quota em 20,1% (mais 2,6 pontos percentuais em termos homólogos).

No mercado português, a Apple e a Acer também completam o ‘top5’, mas ambas têm uma quota de mercado inferior a 10%.

Segundo Francisco Jerónimo, há dois factores que justificam a liderança da chinesa Lenovo perante a concorrência. Por um lado, a Lenovo tem uma forte prática um preços atrativos, inferiores ao preço médio de mercado. “O preço médio da Lenovo é mais baixo ao preço médio do mercado em cerca de 200 dólares (165,6 euros).

Por outro, a marca de Pequim tem uma política de gestão de componentes mais agressiva do que os concorrentes. “Ou seja, enquanto a HP, a Asus ou outro fabricante são mais conservadoras, encomendando componentes à medida do que planeiam vender, a Lenovo açambarca componentes e depois tenta vender”, explicou o responsável da IDC.

Assim, a política da Lenovo têm-lhe dado maior “capacidade de entrega”. E essa capacidade tem sido determinante em ano de pandemia. “Durante a pandemia, com a falta de produtos que se verificou, a Lenovo beneficiou dessa falha. Entretanto, os outros concorrentes também responderam”, salientou Jerónimo.

Mas houve períodos, este ano, em que os stocks estiveram temporariamente esgotados? “O que se tem verificado no último ano e meio ou nos últimos dois anos é que tem havido uma falha muito grande por parte da Intel na entrega de componentes – neste momento até se verifica por parte da AMD. Isso fez com que a Lenovo tenha sido mais agressiva em alguns momentos perante a concorrência”, explicou Francisco Jerónimo.

A postura mais agressiva da Lenovo vem no seguimento de uma estratégia para ganhar quota de mercado e tornar-se num marca de referência. “Isto acontece muito com as marcas chinesas, que são extraordinariamente agressivas no preço, estão no mercado para ganhar no longo prazo, mesmo que percam dinheiro no curto prazo. Isso verificou-se com a Huawei nos smartphones”, disse o especialista.

Isto significa que a estratégia da Lenovo poderá mudar, entretanto, uma vez que uma política de gestão das componentes agressiva também configura um risco. “Se não venderem as máquinas como pretendem, têm de as vender a um preço mais baixo em campanhas promocionais, por exemplo”.

Perante estes dados, o que esperar para o último trimestre de 2020 e para o primeiro de 2021? Francisco Jerónimo não antevê grandes alterações neste mercado, apontando que “vai continuar a guerra” entre a Lenovo, HP e Asus. Uma rivalidade a três que poderá vir a contar com a quatro, mediante as apostas da Apple.

Acresce a previsão de que a “Huawei vai ganhar mais expressão e vai continuar a crescer nos portáteis”. “A Huawei é o sexto maior fabricante, em Portugal, com uma diferença de 1.500 unidades para o quinto lugar [Acer]. Ou seja, a Huawei começou a vender no início deste ano os seus portáteis em Portugal e, no terceiro trimestre, teve uma quota de mercado de 6,7% (vendeu cerca de 11.300 unidades). E só não conseguiu uma quota maior e vendas mais acentuadas porque não teve acesso a componentes. Vamos ver como corre no próximo ano, quando os fabricantes tradicionais conseguirem entregar as quantidades que o mercado vende”, concluiu o responsável da IDC.

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