Vilar Formoso

À nossa ancestral pobreza começa a juntar-se a incapacidade de reter o talento. As nossas boas escolas são um alfobre de quadros para o mundo rico.

Nos anos 70 do século passado, os jovens que terminavam o ensino secundário e tomavam a decisão de ir estudar Direito, ouviram certamente muitas vezes, como eu ouvi: é um bom curso, só que termina em Vilar Formoso.

Isto por contraponto aos cursos de Engenharia ou de Medicina que permitiam, já nessa época, o exercício de actividades profissionais fora do país.

Não era vulgar. Os licenciados, por norma, não emigravam. E mesmo os que iam para o estrangeiro fazer os seus doutoramentos, regressavam rapidamente para as nossas universidades.

Acontece que o mundo mudou, e até o curso de Direito deixou de terminar em Vilar Formoso…

O jornal “Expresso” noticiou a 27 de Maio passado que os grandes escritórios londrinos de advocacia, os que operam na e a partir da City de Londres, estão a recrutar agressivamente jovens advogados portugueses.

Já tínhamos visto sair médicos, enfermeiros, tecnólogos, financeiros e, agora, parece que chegou a vez dos advogados. Aqueles que, há apenas 40 anos, tiravam um curso que terminava em Vilar Formoso.

Sabemos que o mundo é global, que os movimentos internacionais de pessoas são cada vez mais importantes, mas talvez tudo tenha a ver com a nossa aparentemente inultrapassável pobreza.

À nossa ancestral pobreza começa a juntar-se a incapacidade de reter o talento. As nossas boas escolas são um alfobre de quadros para o mundo rico. E assim regressamos ao poema de Manuel Freire:

Ei-los que partem

Novos e velhos

Buscar a sorte

Noutras paragens

Noutras aragens

Entre outros povos

Ei-los que partem

Velhos e novos

Felizmente bem preparados, com capacidade para desempenhar os melhores lugares e com as condições e a ambição de se afirmarem nas suas profissões.

Sim, já não nos chamamos todos Manuel, nem somos todas concierges. Mas a produção de riqueza fica noutras paragens, noutros países.

Porventura já existirá em Portugal uma política pública para lidar com esta situação. Caso não exista, talvez não se deva perder muito tempo a criá-la. O mercado, esse, não perde tempo.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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