Vinhos para todos os gostos para brindar ao final de 2017

Não é certamente tudo, claro que não inclui todos os melhores vinhos portugueses surgidos no mercado, mas com os constrangimentos de uma pequena seleção serve como um roteiro honesto por parte das regiões vinícolas portuguesas.

Abrimos com um vinho da região de Lisboa. É uma prova segura este Quinta do Pinto Estate Collection branco de 2016. Fruto de um lote único de castas tradicionais da região, como o Fernão Pires e o Arinto, além do Antão Vaz, mais associado ao Alentejo, este vinho beneficia ainda de um toque das castas francesas Roussanne, Chardonnay e Semillon. O proprietário, António Cardoso Pinto, não está na origem do nome da quinta da zona de Alenquer – que vem já da monarquia e traduz o grande valor dos vinhos ali produzidos, uma vez que ‘pinto’ era uma preponderante moeda de ouro dos tempos de D. João V – mas atesta pela qualidade deste vinho e pela evolução real destas vinhas.

Passamos a Setúbal, ao Adega de Pegões Colheita Selecionada, branco, de 2016. Nas terras que pertenceram ao grande produtor José Rovisco Pais, a cooperativa local oferece-nos a hipótese de desfrutarmos de um vinho que passou por uma ligeira fermentação pelicular, seguida de fermentação alcoólica em madeira de carvalho francesa e americana, com um envelhecimento de quatro meses e recurso à ‘batonnage’ (agitar o vinho dentro da barrica com uma vara – ‘baton’ – para misturar o depósito ou borras com o restante vinho), o que lhe confere mais corpo. Chegou-se, assim, a este vinho encorpado, estruturado, frutado e fresco.

Subimos agora até ao Douro, à Quinta do Couquinho, que está na posse da família Melo Trigo há mais de dois séculos. Se no dialecto local do Alto Douro ‘couquinho’ significa que nos encontramos num sítio de difícil acesso, já os vinhos daqui saídos são de trato fácil e bem agradável. O Quinta do Couquinho, colheita tinto DOP 2014, é disso exemplo. Em regime de produção integrada, à base de Touriga Nacional, Touriga Franca e Sousão, algumas das castas mais características da região, foi alvo de vindima à mão, vinificação em cubas de inox, estágio em barricas de carvalho francês, novas e de 2º ano, durante 12 meses. Tudo isto contribuiu para um regalo à vista, ao olfacto e ao palato.

Baixamos ao Alentejo. O Amphora 2014 é um caso exemplar do feliz regresso à bela tradição de fazer vinhos de talha, em pote de barro, muito típica desta região. Na Herdade das Cortes de Cima, junto à Vidigueira, os proprietários Carrie e Hans Jorgensen, disponibilizaram-nos este vinho de talha especial, com duas talhas diferentes. Por isso mesmo, um vinho de talha diferente, mas para melhor.

Da terra de Teixeira de Pascoaes, Agustina Bessa-Luís ou Amadeo de Souza Cardoso chegou-nos mais uma obra inspirada, desta feita na área dos espumantes, em que Portugal tanto tem evoluído nos últimos anos no que respeita a qualidade e diversidade de produção. Do beira-Tâmega de Amarante, sub-região dos vinhos verdes, surgiu o Quinta da Calçada Cuvée de Choix, resultante dos melhores mostos, das melhores vinhas e das melhores castas do produtor, neste caso da família Mota, proprietária do maior grupo nacional de construção civil e obras públicas. Espuma cremosa e acidez bem balanceada promovem um longo final e comprovam que esta é uma obra bem acabada.

Regressando ao Douro, o Quinta Nova Terroir Blend Reserva 2015 é uma simples delícia de sedução, de uma quinta que já foi uma das grandes terras pertencentes à Casa Real Portuguesa. Hoje propriedade da família Amorim, na sua 4ª geração, através da administradora Luísa Amorim. Com esta liderança surgiu em 2017 no mercado uma proposta de grande valor acrescentado, mais uma maravilha dos socalcos do Douro.

Atração às 4 Castas é o que nos propõe o Esporão do mesmo nome, tinto, edição de 2016, mesclando Touriga Nacional, Touriga Franca, Syrah e Petit Verdot. Fermentado a temperaturas controladas entre os 22º e os 25º, em lagares com pisa a pé, em cubas tanto de cimento como de inox, com parte do estágio em barricas de carvalho francês. Mais um vinho singular do Alentejo, da casa liderada por José Roquette desde 1973.

Um Arinto do Douro que dispensa companhia de qualquer (outra) casta.. É assim que se impõe o Quinta do Síbio, branco de 2016, que tem o único de defeito de nos fazer encarar um mundo muito mais desolador quando desgraçadamente se acaba. Mais uma grande bandeira dos mestres da Real Companhia Velha.

Ainda no Douro, o Quinta dos Murças VV47 é um ‘field blend’ (castas misturadas de nascença na vinha), feito a partir de vindima manual em vinhas velhas com 70 anos de idade. Um exemplo refinado da história vertical do xisto, sob a batuta da Herdade do Esporão no Douro, beneficiando de uma certificação SATIVA, derivada do modo de produção integrada.

Valados de Melgaço, Alvarinho, 2016, é vinho verde biológico a quase 100%, com vinificação natural em cascos de carvalho português. O mais recente feito de Artur Meleiro, engenheiro industrial de produção e sistemas informáticos, que mantém como prioridades o gosto pelo campo, pelo vinho, pelas vinhas, pelas vindimas e pela tradição.

Sem Vergonha, tinto 2015, é o impactante nome de um vinho desassombrado à imagem de um Borgonha…, mas sem Borgonha, apenas 100% Castelão, cultivado em Mora, Alentejo. É o mais recente resultado da bem sucedida parceria entre os enólogos Susana Esteban e Dirk Niepoort. Esperemos que não o último…

Da Quinta da Boa Esperança, nas imediações de Torres Vedras surpreendeu-nos o vinho do mesmo nome, tinto de Touriga Nacional, colheita de 2015. Para manter as conexões com a época dos Descobrimentos, esta nova produtora de Lisboa dá pelo nome de Casa Agrícola da Gama, apelido de Artur, que com a sua consorte Eva nos apresentam mais um projeto com vontade de impressionar de forma positiva pela qualidade e riqueza dos seus vinhos.

Para acabar em beleza, a última sugestão é dupla, da Santos da Casa, produtora que assenta numa plataforma multi-regiões. Um rosé do Douro e um verde Alvarinho, ambos de 2016. Vinhos complexos, requintados, com toques de fruta, mas bem estruturados.

Não é certamente tudo, claro que não inclui todos os melhores vinhos portugueses surgidos no mercado, mas com os constrangimentos de uma pequena seleção serve como um roteiro honesto por parte das regiões vinícolas portuguesas.

Castas nacionais e estrangeiras, monovarietais e ‘blends’, tintos, brancos, rosés, verdes e espumantes, vinhos de talha, vinhas velhas, ‘field blends’. Do Minho ao Alentejo, do Douro a Setúbal, passando por Lisboa. De grandes grupos empresarias, de cooperativas ou de empreendedores de iniciativa familiar. Em tão limitada escolha, a variedade impera e é um retrato do atual setor em Portugal. Para o ano, 2018, há mais…

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