Vítor Bento: “Bancos são instrumentos essenciais da promoção do bem-estar social”

Os bancos são instrumentos essenciais da promoção do bem-estar social e estão do lado dos seus clientes nos momentos difíceis, porque isso é do seu interesse, defende o presidente da APB que alerta no entanto que há uma campanha ideológica contra os lucros da banca.

Cristina Bernardo

O presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Vítor Bento, na conferência “Banca do Futuro” organizada pelo Jornal de Negócios, defendeu o papel da banca nas várias crises, mas alerta que não compete aos bancos fazer política social.

“Os bancos estão do lado dos clientes”, afirmou, tal como tem acontecido nesta crise, em muitas outras, e “eloquentemente na crise pandémica”.

O sector bancário “é um indispensável e ativo aliado na promoção do bem-estar social”, tendo-o mostrado através de empenhada proatividade — com sólidos factos e contra as injustas acusações ideológicas de que é alvo frequente. “Sem descurar a irrecusável obrigação principal que é criar valor económico, não é insensível aos apertos financeiros dos seus clientes e às agruras da sociedade. Tanto mais que ambos – clientes e sociedade – constituem importantes stakeholders e destinatários da sua atividade”.

“A inflação traz consigo uma adversidade adicional, o remédio necessário para a dominar – subida das taxas de juro – também tem, colateralmente, efeitos nefastos nos orçamentos das famílias e das empresas endividadas, para além de fazer arrefecer a atividade económica, que poderá acabar mesmo por entrar novamente em recessão”, alertou.

As famílias, “apertadas por uma tenaz, onde, de um lado, a inflação tira rendimento e, do outro, a subida das taxas de juro consome mais rendimento, têm visto subir naturalmente a sua ansiedade, e com ela cresce o apelo populista para capitalização política, em cuja competição o sector da banca é sempre um alvo apetecível e promissor”.

Nesta circunstância, e para que o bom senso não se perca, “importa lembrar alguns factos importantes sobre a atividade bancária e a sua importância”, disse.

Vítor Bento considera que “quem gere e quem desenvolve atividade nos bancos não são robots nem algoritmos. São pessoas, que, como pessoas, têm sensibilidade humana e social”.

Mas, independentemente da maior ou menor sensibilidade de cada uma das pessoas envolvidas, “é do interesse dos bancos em geral – para assegurar a continuidade bem sucedida do seu negócio – que os seus clientes possam pagar as suas dívidas e que estejam agradados com o apoio que recebem, porque, além do mais, isso os torna nos principais promotores dos seus bancos. Por isso, é do interesse dos bancos ajudar os clientes que atravessem dificuldades transitórias a superá-las e a regressar, tão depressa quanto possível, e nas melhores condições, à normalidade das suas vidas”, defende o presidente da APB numa altura em que o Governo anunciou um diploma que força os bancos a propor reestruturações aos créditos que ultrapassam uma determinada taxa de esforço com a subida da Euribor.

Há uma campanha ideológica contra os lucros da banca, voltou a defender o presidente da APB

Vítor Bento alertou que a “campanha ideológica contra os lucros da banca é um instrumento de estreitamento das possibilidades de o sector apoiar a economia e as famílias”. O presidente da APB defende que se deve olhar para a rentabilidade dos capitais próprios, que é baixa, e não para o valor absoluto dos lucros.

O presidente da APB defende que a banca ajude as famílias e as empresas, mas lembrou as regras que a banca tem de seguir e o elevado custo de capital e baixa rentabilidade. “O que os bancos podem fazer para ajudar os seus clientes é marginado pelas obrigações a que estão sujeitos e pelas possibilidades de que dispõem”, considera.

“Do lado das obrigações destaco, desde logo, a de atender aos direitos legítimos e à proteção dos seus acionistas e, principalmente, dos depositantes, que fornecem os fundos que os bancos emprestam para atender ao desenvolvimento da economia e às necessidades das famílias”, disse.

Depois, “a obrigação de respeitar as normas regulatórias a que a sua atividade está sujeita, umas originadas nas autoridades nacionais, outras emergentes das autoridades europeias e que contêm exigências prudenciais que os bancos não podem nem devem contornar”.

“Do lado das possibilidades, salienta-se o capital e a liquidez de que dispõem, bem como a solidez do seu balanço. Neste campo, felizmente, os bancos fizeram um progresso notável desde a crise financeira e estão hoje tão ou mais capacitados do que alguma vez estiveram. Mas a vida económica, como o mundo em geral, é dinâmica, pelo que os equilíbrios de um dado momento podem facilmente desestabilizar-se por essa dinâmica, requerendo uma contínua proatividade para a sua preservação ou reforço”, alertou o presidente da associação.

“Os sucessos pertencem sempre ao passado e o que o futuro traz são desafios que têm que ser permanentemente superados se se quiser manter a senda de sucesso. Ou, parafraseando Lewis Carroll na Alice no País das Maravilhas, é preciso pedalar muito apenas para ficar no mesmo lugar e pedalar de muito para se progredir no caminho”, disse Vítor Bento.

O presidente da APB referiu que a capacidade de atrair capital é uma condição fundamental “para se poder andar em frente, reforçar o balanço e expandir o crédito de que a economia e as famílias precisam para se desenvolver”.

Mas, “para atrair capital é preciso remunerá-lo adequadamente e tão bem ou melhor do que as outras atividades e empresas que disputam a sua escassez. Sem remuneração adequada, o capital não flui para o sector, e se não fluir, o campo das possibilidades fica mais estreito. Por isso, a campanha ideológica contra os lucros dos bancos – lucros que, recordo, não têm sido suficientes para compensar o que é reconhecido como custo do capital – não pode deixar de ser vista pelo ângulo das consequências que comporta”, volta a dizer Vítor Bento.

A mais importante dessas consequências, “para o que neste caso interessa, é a redução do campo das possibilidades de os bancos ajudarem a economia e as famílias”, constatou.

Resumindo, o presidente da APB diz que “é essencialmente da interseção dos três conjuntos extensamente explanados – interesses próprios, incluindo os reputacionais, obrigações e possibilidades – e não da maior ou menor sensibilidade pessoal de quem os governa [aos bancos], que resulta o espaço de manobra de que os bancos dispõem para ajudar os clientes em situação difícil. E não restam dúvidas de que os bancos irão utilizar o máximo possível desse espaço”.

Sobre o futuro da banca, Vítor Bento defende que a sustentabilidade do seu futuro vai depender da capacidade de adaptação às exigências das transformações tecnológicas e da agenda climática.

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