“Voar perpetuamente”. O avião solar do ‘capitão’ Piccard

O ‘capitão’ Piccard quer convencer os líderes globais a apostar em ferramentas para proteger o ambiente. Com este objetivo, realizou a primeira viagem num avião movido a energia eficiente, com um painel solar no tejadilho.

O seu apelido faz recordar outro explorador, o do capitão Jean-Luc Picard da série televisiva ‘Caminho das Estrelas’ (Star Trek). Mas a aventura corre nas veias deste psiquiatra suíço, que vem de uma família de exploradores. A sua grande aventura agora é trabalhar com o objetivo de combater as alterações climáticas.

No âmbito da Global Exploration Summit, que foi marcada pela celebração dos 500 anos da primeira viagem de circum-navegação planetária, Bertrand Piccard foi uma das figuras em destaque na Fundação Champalimaud. A cimeira reuniu em Lisboa diversos exploradores, cientistas e investigadores mundiais para falarem sobre o futuro do planeta.

Piccard esteve em Lisboa para falar sobre o novo projeto com que pretende ajudar o mundo: o desafio das mil soluções. “Atualmente temos grandes desafios para ter uma melhor qualidade de vida”, esclarece o explorador ao Jornal Económico. “Estamos a lutar contra a pobreza, direitos humanos, governantes e ambiente”, destaca Piccard.

“A exploração já não está relacionada com descobrir novos territórios, mas sim com as novas soluções para combater estes desafios”, afirma. Com a Fundação Solar Impulse, Bertrand Piccard planeia explorar todas as soluções possíveis.

De forma a alertar para estas novas soluções, Bertrand Piccard voou com André Borschberg num avião que continha um painel solar no tejadilho. “A bateria era carregada durante o dia, em pleno voo, e isso permitia voar durante a noite. Este avião poderia voar perpetuamente”.

Aqui, o plano dos dois não era reduzir o consumo de energia, mas mostrar que é possível viver de forma eficiente a nível energético.

Piccard avança que “uniu o treino como explorador e a educação para servir os humanos e o planeta”, alertando que a principal ameaça são os próprios seres humanos. “A primeira ameaça é que os seres humanos vão sofrer, porque vamos viver com doenças tropicais em países temperados. Quando houver malária em Nova Iorque ou Paris não vai ser divertido”, sustenta.

“Hoje há soluções, e são bastante interessantes. É isso que eu estou a explorar com o Solar Impulse”, explica. “Lançámos o desafio de identificar mil soluções que podem ser introduzidas no meio ambiente, mas de uma forma lucrativa”, acrescenta.

Quais são as soluções existentes que permitem salvar o meio ambiente? “Existe um sistema de 500 euros que é colocado num motor a combustão, em que a emissão de partículas tóxicas é reduzida em 80% e o consumo de combustível reduz em 20%”. Este é apenas um exemplo oferecido por Piccard, com o explorador a garantir que existem muitos mais que “protegem o ambiente e reduzem de forma significativa a pegada humana”.

No entanto, ainda é necessário convencer os decisores globais destas soluções já existentes. “Precisamos de mostrar que há vantagens económicas para estas mudanças”.

Como iria convencer Donald Trump a adotar estas soluções, alguém que assume que o aquecimento global não existe? “Essa é a minha referência para alterar visões”, explica Piccard. “Não podia chegar ao pé dele e dizer que tinha boas ideias para proteger o ambiente. Mas se lhe disser que tenho mil soluções para tornar a ‘América grande outra vez’, que englobam mais crescimento, criação de emprego e mais lucros, ele ia ouvir-me”, acrescenta, abordando a vertente da psiquiatria.

Numa homenagem a Portugal, Piccard elogiou dois portugueses. “António Guterres é muito corajoso e está a forçar os países a adotar boas práticas ambientais”. Já Carlos Moeda, comissário europeu, também é um português que ficou na mente do explorador. “Gosto da forma como ele pensa. Trabalhámos juntos neste projeto”, elogia.

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