Voluntariado, uma questão de cidadania

De acordo com os últimos dados – que infelizmente remontam à década anterior porque continua a existir uma grande lacuna em termos de conhecimento estatístico das práticas de voluntariado – apenas 12,7% da população portuguesa se envolvia regularmente em atividades de voluntariado, percentagem muito inferior, já nessa época, aos 38% de média comunitária. Quero acreditar […]

De acordo com os últimos dados – que infelizmente remontam à década anterior porque continua a existir uma grande lacuna em termos de conhecimento estatístico das práticas de voluntariado – apenas 12,7% da população portuguesa se envolvia regularmente em atividades de voluntariado, percentagem muito inferior, já nessa época, aos 38% de média comunitária.
Quero acreditar que na última década a situação tenha evoluído, mas receio que não tenha sido tanto quanto o desejável, uma vez que se agudizaram, e de que maneira, as necessidades de solidariedade em todas as áreas da vida social.
Se analisarmos em termos de segmentação sectorial, a maioria dos voluntários optam pela área dos serviços sociais – 36% -, e apenas 12% se dedicava à área de cultura e lazer.
Se a urgência do sofrimento humano torna esta área (justamente) como prioritária nas opções dos voluntários, também outras, como o Património, a Educação e a Cultura poderão ser terreno fértil para a participação cívica e voluntária dos portugueses, com ganhos pessoais e comunitários de grande significado.
Já há hoje muitos portugueses que dedicam parte do seu tempo livre à realização das mais diversas atividades culturais, que incluem ações de conservação e divulgação de património imóvel, realização de visitas guiadas, apoio a atividades pedagógicas, apoio a atividades nas Bibliotecas Públicas, nos serviços educativos dos teatros, dos museus, até em intervenções lúdico-culturais em creches, escolas e lares de 3ª idade. Também alguns profissionais se juntam em espírito solidário, pro-bono, a projetos de voluntariado na área cultural, que incluem desde tarefas de leitura e gravação de livros (produção de livros sonoros para deficientes visuais) à higienização, acondicionamento e pequenas intervenções em património móvel, passando por gravações musicais solidárias, espetáculos, etc.
Mas mais do que ações isoladas ou esporádicas, interessa aqui relevar e sublinhar a importância de se prestigiar e valorizar devidamente as ações de voluntariado regular. Há que saber reconhecer e saber agradecer a quem abdica do seu tempo livre e do seu bem-estar para se dedicar aos outros, ao património das gerações futuras e ao fortalecimento do seu país por via da preservação das suas memórias patrimoniais.
Haverá certamente melhorias a introduzir na legislação nacional, para se continuar, cada vez mais, a aprovar medidas de incentivo à prática de ações de voluntariado, nomeadamente o voluntariado cultural, como, por exemplo reconhecendo a prática de voluntariado para efeitos de progressão profissional ou mesmo, em caso de reformados, para efeito de benefícios fiscais.
Termino sublinhando a enorme generosidade dos Voluntários, em todas as áreas, que contribuem com o seu empenho e esforço para o bem de todos nós. Obrigada.

 

Gabriela Canavilhas
Pianista, deputada e ex-ministra da Cultura

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