Vox Populi: anti-sistema

A instabilidade politica não é nova e não deverá ter em 2015 avanços significativos o suficiente para se tornar um risco de expressão elevada no mercado financeiro. Mas parece provável que a insatisfação social perante o sistema, materializada na maior dificuldade dos governos em aplicar medidas ou ter maiorias de governação confortáveis, são um entrave […]

A instabilidade politica não é nova e não deverá ter em 2015 avanços significativos o suficiente para se tornar um risco de expressão elevada no mercado financeiro. Mas parece provável que a insatisfação social perante o sistema, materializada na maior dificuldade dos governos em aplicar medidas ou ter maiorias de governação confortáveis, são um entrave ao crescimento económico e ao bom ambiente de negócios.
As populações estão exaustas da austeridade. Esta é uma mensagem que ambos os lados (eleitores e políticos) conhecem. A mensagem que tarda a reconhecer-se e parece exacerbar o fosso entre os interesses de uns e outros é que as populações também estão exaustas do comportamento dos políticos e do funcionamento do sistema económico e social: corrupção; lobbies; interesses próprios; desalinhamento com o contribuinte e com o eleitor; escanda-los; entre outros.
O que existe é, também, uma exaustão perante o sistema e o poder instalado.
Estes movimentos não são novos; acontecem diversas vezes ao longo da história e muitas vezes são inconsequentes. Outras, contudo, são consequentes e criam novos paradigmas.
Em 2015 a tentativa dos movimentos alternativos tomarem parte do poder político dever-se-á intensificar, dando continuidade ao “assalto” ao parlamento europeu levado avante por movimentos separatistas e de extrema-esquerda e extrema-direita em 2014.
Marine Le Pen, em França, Líder da Frente Nacional, é uma séria candidata à Presidência do país e em Espanha, por exemplo, o Podemos tem um crescimento exponencial em apenas alguns meses. Estes são apenas alguns exemplos, para além da recente queda do governo de centro-esquerda sueco devido à falta de capacidade de consensos políticos em boa parte devido à presença do partido  nacionalista na assembleia. A própria Alemanha verifica um crescimento rápido do partido ‘anti-europeu’.
Em 2015 teremos: eleições em Inglaterra, onde o partido separatista UKIP – United Kingdom Independence Party – poderá surpreender; possibilidade de legislativas antecipadas na Grécia; e eleições legislativas em Portugal e em Espanha.
Não querendo entrar, contudo, em considerações políticas mais profundas, as implicações económicas e para os investidores podem não ser claras, mas existem.
Talvez a implicação mais evidente se verifique no menor investimento privado e público e na consequente quebra do crescimento económico. Uma relação menos direta, mas não negligenciável, é a alteração dos fundamentais de algumas empresas, que poderão perder as barreiras políticas à concorrência nos seus negócios – utilities, telecoms, empresas do setor da construção e até o setor automóvel – ou que poderão perder a almofada do dinheiro público – isto parece mais evidente para o sistema financeiro que nos anos sequentes à crise foi apoiado pelos contribuintes europeus.
Desta forma, os investidores deverão focar-se em empresas com capacidade de gerar cash-flows mesmo num cenário de maior instabilidade política e/ou de um ciclo económico menos favorável. Empresas cujos produtos sejam exclusivos ou que tenham nichos de mercado. Em suma, uma análise microeconómica detalhada poderá ser vantajosa para os investidores, descorrelacionando os seus portefólios dos eventos políticos de 2015.

Duarte Mallaguerra Nunes
Direção de Investimentos, Banco Best

Recomendadas

Sistema financeiro responde ao desafio da transição climática

1. Qual a importância do sistema financeiro e dos bancos em particular para fomentar a transição climática?

Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.

As pessoas não podem ficar para trás na nova era

Milhões de euros de investimentos e centenas de megawatts. Ao escrever e ler sobre o mundo da energia, é normal que os grandes números sejam abordados, tal a dimensão dos projetos.