XTB não antevê eclosão de outra crise financeira global com a situação do Credit Suisse

“Na situação atual, a eclosão de outra crise financeira global como consequência do potencial colapso deste banco parece improvável, mas mesmo assim as consequências locais e a curto prazo do futuro questionável do Credit Suisse devem ser tidas em conta”, concluem os analistas da corretora.

Os analistas da XTB publicaram esta quinta-feira um comentário ao nervosismo dos mercados em relação ao Credit Suisse, nomeadamente sobre as ações do banco suíço, em parte devido à reestruturação em curso desde finais de julho e à deterioração dos resultados financeiros

A queda recente das ações do banco (hoje estão a subir mais de 2%) pode indicar que os investidores receiam uma repetição do cenário negro que marcou a falência do Lehman Brothers.

Os analistas perguntam, na sua análise, se temos razões para estarmos preocupados?

“A capitalização bolsista atual do Credit Suisse é ligeiramente superior a 10 mil milhões de francos suíços, um mínimo histórico”, lembra a XTB  que diz que o desempenho do banco tem vindo a deteriorar-se constantemente de trimestre para trimestre.

A 27 de outubro, o Credit Suisse publicará os seus resultados referentes ao terceiro trimestre de 2022 e revelará um plano de reestruturação. Ulrich Körner, CEO do Credit Suisse, comparou o banco a uma fênix que está prestes a renascer das cinzas. “Fundamentalmente, os últimos três trimestres mostram o fraco desempenho do banco tanto no crescimento das receitas como na rentabilidade dos lucros operacionais. As fontes dos problemas do banco são principalmente investimentos mal orientados em fundos e um caso que envolve a origem dos depósitos detidos no banco, que remontam à década de 1940”, recorda a corretora.

O investimento na Greenfield custou ao Credit Suisse cerca de 2 mil milhões de dólares em perdas mais custos de reestruturação e legais. Em contraste, o banco perdeu (dependendo das fontes) entre 4,7 mil milhões e 5,1 mil milhões de dólares no seu investimento em Archegos. Em comparação, a Morgan Stanley reportou um prejuízo de quase mil milhões de dólares; o UBS Group AG sofreu prejuízos de 773 milhões de dólares.

“Além disso, no início deste ano, estalou um escândalo devido a uma fuga maciça de dados envolvendo cerca de 18.000 contas de clientes de todo o mundo, com um total de fundos depositados superior a 100 mil milhões de francos suíços”, diz a XTB.

A corretora refere-se ao caso divulgado pelo Suisse Secrets, um projeto de investigação realizado por mais de 160 jornalistas em 39 países com base numa fuga de informação partilhada pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que revelou que o banco escondeu cerca de 18 mil contas bancárias de 30 mil clientes; pessoas e empresas que, no total, depositaram quase 100 mil milhões de euros no banco suíço, entre 1940 e 2010. Da lista de clientes identificados como problemáticos, constam dois portugueses, ambos a braços com a justiça. São eles os luso-angolanos Álvaro Sobrinho, antigo diretor do Banco Espírito Santo em Lisboa e dos BES Angola, e Hélder Bataglia, fundador da Escom, do Grupo Espírito Santo em Angola.

“Acontece que este procedimento estava em curso desde os anos 40 e o banco não estava particularmente preocupado com a origem dos fundos depositados nas contas.”, diz a XTB.

“Dois investimentos falhados, um escândalo de imagem, a deterioração dos resultados financeiros, a demissão do CEO e a reestruturação. Não surpreendentemente, os observadores do mercado falam cada vez mais alto sobre a possibilidade de o banco declarar falência”, reconhece o analista.

“Acrescentar combustível ao incêndio é o facto de as avaliações recentes dos chamados credit default swaps [CDS] terem aumentado significativamente. Estes são os chamados CDS, ou derivados, utilizados para cobrir o risco de incumprimento do mutuário”, detalha a XTB.

Mais tarde, a 30 de setembro de 2022, a avaliação dos CDS do Credit Suisse foi a mesma que em 2009, logo após o colapso do Lehman Brothers e a eclosão da crise financeira global. “Por conseguinte, isto pode significar que o fiscus parece estar a descontar o risco potencial de falência dos bancos”, acrescenta.

A questão, diz a XTB, irá o governo suíço permitir a insolvência do banco? “A partir de hoje, as hipóteses são escassas. É provável que seja semelhante ao caso do UBS, o maior banco suíço, que também se deparou com problemas durante a crise financeira. O governo suíço recapitalizou-o, o banco passou por uma reestruturação, e agora as suas operações não sofrem flutuações tais como o Credit Suisse. No entanto, é de esperar que a reestruturação do banco seja dolorosa e árdua, como o CEO do Credit Suisse já comunicou. Isto pode significar, antes de mais, cortes significativos nos custos de pessoal”, defendem os analistas da corretora.

Os meios de comunicação estão a comparar os problemas do Credit Suisse com os do banco Lehman Brothers, que entrou em insolvência em 2009. Mas a XTB lembra que a eclosão da crise financeira em 2008 não foi causada pelo colapso do Lehman, mas a falência desse banco foi a faísca que caiu sobre o barril de pólvora. “A causa foi a existência de obrigações tóxicas baseadas em hipotecas. Para ser mais preciso, os bancos emitiram hipotecas em grande escala a pessoas que não puderam pagá-las. Depois, com base nestes empréstimos, criaram títulos garantidos por estes empréstimos e venderam-nos uns aos outros. Isto pode ser comparado a brincar com uma batata quente. Acontece que o último banco a segurá-lo foi o Lehman Brothers. Quando esse banco entrou em colapso, verificou-se que os títulos não valiam nada”, refere a corretora.

Hoje em dia a situação é diferente, frisa a XTB. A” condição financeira e a situação do Credit Suisse é, em grande parte, da responsabilidade do próprio banco”. “Na situação atual, a eclosão de outra crise financeira global como consequência do potencial colapso deste banco parece improvável, mas mesmo assim as consequências locais e a curto prazo do futuro questionável do Credit Suisse devem ser tidas em conta”, conclui.

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