Yellen assusta Wall Street com mais três subidas dos juros em 2017

Fed deverá avançar com três subidas das taxas de juro em 2017, indo mais longe do que o mercado esperava. Wall Street reage em queda.

A presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, disse hoje que a subida de taxas decidida pelo banco central reflete confiança na economia dos EUA, mas a expetativa de um ritmo de subida mais acentuado no próximo ano acabou por castigar as ações e obrigações americanas na sessão de quarta-feira.

A Fed subiu as taxas de juros pela primeira vez este ano, em 0,25 pontos percentuais, e reviu em alta as previsões para os custos do crédito em 2017, adiantando que as expetativas sobre a inflação aumentaram “consideravelmente”.

“A nossa decisão de subir as taxas certamente deve ser entendida como um reflexo da confiança que temos no progresso da economia e a nossa visão é de que esse progresso vai continuar. … É um voto de confiança na economia”, afirmou a presidente da Fed, na conferência de imprensa no final da reunião de dois dias em Washington D.C..

A decisão sobre as taxas de juros foi unânime entre os membros do comité da Fed pela primeira vez desde Julho, elevando a meta para o ‘federal funds rate’, ou seja a taxa de empréstimos ‘overnight’ entre bancos, para um intervalo de 0,5% e 0,75%, o que em princípio fará subir ligeiramente os custos do crédito para consumidores e empresas, beneficiando as poupanças.

Yellen frisou que a subida representa “um ajuste muito modesto no percurso do ‘federal funds rates’ e envolve mudanças por apenas alguns dos participantes.  Alguns dos participantes, mas não todos os participantes, incorporaram alguma mudança na política fiscal nas suas projeções, e isso pode ter sido um fator”.

Os decisores do banco central prevêem agora três novas subidas nas taxas em 2017, face a uma previsão de duas na última reunião, em setembro. Estas previsões são baseadas na mediana das estimativas dos 17 membros da Fed.

O presidente-eleito, Donald Trump, prometeu cortes nos impostos e investimento nas infraestruturas para fomentar o crescimento, mas as taxas mais altas poderão contrabalançar o impacto desses estímulos.

As promessas do magnata republicano Trump, que foi eleito, inesperadamente, para a Casa Branca, a 8 de novembro, levaram os índices em Wall Street a disparar para máximos históricos.

O aumento das taxas era dada como garantido pelos mercados – todos os 103 economistas  consultados pela Bloomberg e os 122 inquiridos pela Reuters – previam essa decisão, mas o novo ritmo previsto para novas subidas em 2017 penalizou os ativos norte-americanos.

O Dow Jones, que ontem ficou perto de quebrar a fasquia do 20.000 pontos, desce 0,6% para 19.798 pontos, enquanto o S&P 500 cai 0,8% e o Nasdaq 0,4%.

No mercado de dívida soberana, a taxa das ‘Treasuries’ a 10 anos sobe 9 pontos base para 2,56% e a do papel a 2 anos dispara 10 pontos para 1,26%.

“A realidade é que isto é muito mais agressivo que o mercado esperava. O consenso era que (em termos do ritmo para o futuro) o Fed esperasse até ter mais detalhes sobre o programa orçamental (de Trump) antes de subir as previsões para as taxas,” disse Dennis Debusschere, diretor executivo na Evercore ISI em Nova Iorque, à Bloomberg.

Trump criticou Yellen várias vezes durante a campanha presidencial, acusando a presidente do banco central de manter as taxas baixas para ajudar a candidata democrata, Hillary Clinton. A reação do presidente-eleito à decisão e aos comentários de Yellen também deverá ser amplamente analisada pelos mercados.

Alguns analistas têm alertado que qualquer crítica de Trump à decisão da Fed poderá levar a perguntas sobre se o novo presidente irá dar independência à Fed, ou se vai romper com a tradição e tentar influenciar as decisões.

“Bem, eu não vou oferecer ao novo presidente conselhos sobre como se comportar na política. Eu sou uma forte crente na independência do Fed. Tem sido dada a independência pelo Congresso para tomar decisões sobre a política monetária para cumprir os nossos objetivos duplo de maximizar o emprego e a inflação, e é nisso que eu pretendo continuar focada.E é nisso que o comité está focado”, frisou Janet Yellen.

 

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