A zona euro tem futuro? Portugal deve preparar-se para o fim da moeda única?

Pedro Lino e António Bob Santos comentam o futuro da Zona Euro e o papel de Portugal.

Bogdan Cristel/Reuters

Pedro Lino
Economista

O aumento do descontentamento tem permitido aos partidos considerados mais extremistas aumentarem a sua popularidade. Uma das origens da alteração no xadrez político tem origem na ineficiência da distribuição de rendimentos.
Em 2015, deu-se a ocorrência de um fenómeno que não se verificava desde 1937: 0,1% da população americana mais rica tinha tanta riqueza quanto os 90% mais pobres. Nunca este nível de desigualdade deixou de ter consequências desastrosas no desenvolvimento das sociedades. No caso europeu, esta situação reveste-se de maior atenção, uma vez que a Europa foi palco de duas grandes guerras, e quem pensa que não podemos voltar ao passado está muito enganado.
As mais recentes sondagens, realizadas em diversos países europeus, demonstram que os partidos anti-euro ganham espaço rapidamente. E Portugal não escapa à discussão, embora mais centrada da restruturação da dívida pública, ou seja perdão da dívida, do que propriamente na saída do Euro. As consequências económicas para pequenos países como Portugal seriam desastrosas. A economia portuguesa e grande parte do seu sistema financeiro dependem do financiamento estrangeiro e da credibilidade em cumprir com as responsabilidades assumidas. Uma saída do euro iria desencadear uma forte desvalorização da nova moeda, até 50%, com custos e benefícios.
Neste cenário, o principal beneficiado é quem tem activos no exterior, seja imobiliário, acções ou obrigações de países estrangeiros, pois conseguem preservar valor. O sector exportador é um vencedor que ganha competitividade via preço. Os salários sobem, mas não compensam o aumento da inflação nem a subida do custo dos empréstimos das famílias, que duplicariam do dia para a noite. E com grande parte do sector empresarial endividado, não seria de estranhar as inúmeras falências e instabilidade social decorrente do aumento do desemprego.
As importações custam mais caro e a inflação sobe, uma vez que os produtos petrolíferos e grande parte da alimentação são importados e pagos em moeda “forte”. As taxas de juro aumentam para valores que não se vêem desde a década de 80, pelo que as poupanças podem sair protegidas, se não forem confiscadas. Isto porque, neste cenário, os bancos encerrarão durante algumas semanas, visto não terem como responder a uma corrida aos depósitos, ao aumento do incumprimento e ao pagamento de dívidas contraídas no estrangeiro.
Se neste momento não existem bancos cotados com peso nacional na sua estrutura accionista, o futuro seria a nacionalização segura com o Estado a absorver todas as perdas. Estado que deixa de conseguir financiar o seu défice, na medida em que passa a ser impossível captar investidores estrangeiros sem pagar taxas proibitivas, implicando um fardo adicional para os contribuintes.
O cenário não é o mais tranquilizador, mas, por alguma razão, os cidadãos começam a pensar que até pode ser uma saída. Certo é que os tempos instáveis vieram para ficar.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

António Bob Santos
Economista

A condução política e económica da União Europeia (UE) na última década, especialmente após a crise financeira de 2008, tem originado um descontentamento crescente nos cidadãos europeus. Descontentamento face aos políticos, às instituições europeias, à austeridade ou à globalização. Estão descontentes e demonstram-no nas urnas. O Brexit, o reaparecimento da extrema-direita (46% nas eleições presidenciais austríacas) ou o recente referendo em Itália são exemplos disso. Mais do que votos em alternativas, podemos dizer que constituem votos de protesto.
Tal como acontece em períodos conturbados, ressurgem discursos antieuropeístas e contra a moeda única, como se esta fosse a causa dos problemas europeus. Se bem que sempre se soube que a UE estava longe de ser uma “zona monetária ótima” – condição para a existência de uma moeda única –, a adoção em 2002 de uma “Zona Euro” constitui parte integrante do projeto político europeu em construção há meio século. E como projeto político, mais do que económico, dificilmente a sobrevivência do Euro poderá ser posta em causa, tornando-o mais ou menos resiliente a choques externos.
Contudo, tal como está, o Euro não se basta a si próprio. Existem debilidades que o tornam vulnerável a futuros choques assimétricos, com prejuízo para os países mais frágeis economicamente, como Portugal: reduzido Orçamento europeu, insuficiente regulação dos mercados financeiros, a não concretização do Mercado Único (como no mercado de trabalho ou na economia digital) ou a inexistência de uma “união fiscal”.
Estas debilidades fazem com que uma hipotética saída de Portugal do Euro tenha apoios em áreas distintas, desde o Nobel da Economia Joseph Stiglitz até ao antieuropeísta Nigel Farage.
Os argumentos para a saída do Euro são sobretudo de natureza económica. Com o “escudo” de novo, ganharíamos competitividade externa, dado que sendo o “escudo” mais fraco as nossas exportações seriam mais apetecíveis, estimulando o emprego e o crescimento. Depois, haveria espaço para uma restruturação da dívida (ou eliminação de parte dela), fortalecendo o “escudo” a prazo.
Contudo, estamos perante argumentos perigosos. No primeiro caso, significaria voltar a uma época de competitividade artificial, baseada no preço e em distorções cambiais, em vez de baseada na diferenciação e na inovação. No segundo, uma restruturação só teria sucesso num quadro alargado europeu de restruturação das dívidas, e não atuando de forma isolada.
Sendo talvez mais tentador sair do Euro, tal não será certamente a solução mais sustentável para Portugal. Contudo, exige-se visão e uma cooperação solidária à escala europeia, que reforce o Euro e consolide o projeto europeu.

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