A emocionante viagem de Nuno Bicho no rasto do Homo Sapiens

O investigador português, vice-reitor da Universidade do Algarve, está de regresso a Moçambique. Nesta descoberta pelos vales do Save e do Limpopo faz-se acompanhar por uma equipa multidisciplinar para comprovar, através da arqueologia, o modelo genético de que as populações humanas da África Austral foram a génese da migração da nossa espécie.

A longa viagem empreendida por Nuno Bicho no século XXI, começa lá longe, no tempo e no espaço. Estudos genéticos apontam para que há 70 mil anos, 80 mil anos, tenha havido uma comunidade que saiu da África do Sul em direção à África Oriental, passou para a Península Arábica e espalhou-se pelo resto do mundo. “É a base genética daquilo que nós somos hoje”, afirma o investigador e ‘alma mater’ do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano da Universidade do Algarve (ICArEHB), ao JE Universidades.

“É preciso dizer — afirma — que terá havido outras migrações de África para fora, da nossa espécie, mas que não resultaram do ponto de vista genético. Foi, de facto, esse grupo de há 70 mil anos que deu origem ao que somos e a esta diáspora que cobriu o mundo todo”.

Os dados genéticos confluem nesse sentido. Será que os dados arqueológicos dizem o mesmo? A pergunta está, por enquanto, no ar. “Aquilo que eu quero saber é se os dados arqueológicos confirmam essa hipótese ou se, pelo contrário, não concordam com ela”, explica-nos. À resposta chegará através do estudo. “Olhando para a arqueologia e utilizando novas metodologias e novas técnicas, vamos tentar fazer um teste científico à teoria genética. Esta é a ideia base do nosso projeto”, adianta.

O projeto chama-se “Dispersals”, ou Dispersões, em português e recebeu, recentemente, uma bolsa de 2,5 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação (ERC). Tem como propósito o estudo das dinâmicas das primeiras migrações do Homo Sapiens a partir de África e avaliar o modelo genético de que as populações humanas da África Austral foram a génese da migração da espécie, a partir daquele continente, há cerca de 70 mil anos.

Da Península Ibérica a África
Nuno Bicho, investigador, hoje professor catedrático e vice-reitor da Universidade do Algarve (UAlg), iniciou a sua grande viagem na peugada do Homo Sapiens nos anos noventa. Jovem bolseiro da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), bebeu conhecimento e experiência internacional enquanto se apaixonava perdidamente pela problemática da chegada da nossa espécie à Península Ibérica. Centrou-se na relação entre o Homo Sapiens e os Neandertais e na forma como foi essa relação aqui, no extremo mais ocidental da Europa. “É uma história que aconteceu entre 35 mil e 45 mil anos”, sublinha. “Depois comecei a pensar que seria mais interessante recuar muito mais no tempo e estender a problemática até ao aparecimento da nossa espécie”, adianta.

Também recuou no espaço. Foi ao berço. Em 2011, com o investigador norte-americano Jonathan Haws, Nuno Bicho esteve em Moçambique para avaliar o potencial de estudo. Ao fim de dois, três anos conseguiu obter uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia e começou a fazer os primeiros trabalhos de campo sistemáticos. Conta-nos: “Desde 2014 até 2019, tivemos vários projetos e fomos várias vezes para Moçambique. Foi aí que descobrimos os elementos base que nos permitiram escrever a proposta e ganhar agora a bolsa ERC”. Ou seja, a bolsa que o vai levar de novo a este país de língua oficial portuguesa.

O financiamento europeu permitirá que um conjunto alargado de investigadores internacionais realizem trabalhos na área que “medeia as duas regiões chave do aparecimento” da espécie humana. Com Nuno Bicho no trabalho de campo estarão cerca de 20 pessoas, durante dois meses, investigadores, mas também jovens estudantes, alguns dos quais da moçambicana Universidade Eduardo Mondlane.

“Vamos utilizar toda uma bateria de técnicas e tecnologias novas que permitirão encontrar dados que tradicionalmente não são encontrados por outras vias”, esclarece. Não se trata de puro trabalho arqueológico tradicional, é um trabalho multidisciplinar, envolvendo ciências como a genética, a proteómica, a geologia e a química.

África do Sul e África Oriental são duas áreas geográficas chave para estudar e saber mais sobre a nossa espécie, a sua origem, o seu desenvolvimento, as suas adaptações. “Olhando para o mapa dos sítios arqueológicos mais importantes, é imenso o vazio que se vê entre essas duas regiões. Nesse vazio, fica Moçambique e mais especificamente ficam os vales dos rios Save e Limpopo, no coração do país”, explica.

Estamos mesmo na pontinha sul do Grande Vale do Rifte, que se estende pelo continente africano desde o Egipto, a norte. “É uma zona de passagem natural entre as duas regiões”, esclarece Nuno Bicho, justificando: “Moçambique é de facto o sítio perfeito para se poder estudar a relação e a migração dessas comunidades antigas da nossa espécie”.

Uma viagem emocionante no rasto até às origens do Homem.

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