“Agentes estrangeiros”. Russos anti-Putin estão a ser forçados a abandonar o seu país

O “The New York Times” revela que mais de 400 pessoas ou organizações receberam esse ‘selo’ desde que entrou em vigor no final de 2020. Em causa estão cidadãos altamente qualificados. Muitos nem sequer estão diretamente envolvidos na política – especialistas em tecnologia, empreendedores, designers, atores e financeiros –, mas na economia e sociedade global,

Maxim Shemetov/Reuters

Cidadãos russos anti-Putin estão a ser forçados a abandonar o seu país ou a não regressar a ele depois de receberem o rótulo de “agentes estrangeiros” por parte do Kremlin. O ato, que serve para ostracizar figuras e organizações da oposição, equivale a classificá-los como inimigos do Estado.

O “The New York Times” revela que mais de 400 pessoas ou organizações receberam esse ‘selo’ desde que entrou em vigor no final de 2020. São anunciados novos nomes praticamente todas as sextas-feiras, sem aviso prévio ou explicação do governo. Mas muitos já esperavam a decisão tendo em conta a natureza do seu trabalho.

Recentemente, foi esse o caso de Karen Shainyan, um defensor dos direitos LGBTQI+ e jornalista, e de outras sete pessoas na mesma semana, incluindo um jornalista com um programa de entrevistas extremamente popular, uma proeminente politóloga e um conhecido cartunista que consistentemente desenhou o presidente Vladimir Putin.

Alguns dos novos inimigos do Kremlin, como Shainyan, já tinham saído da Rússia, com o rótulo a ser destinado a coagi-los a ficar longe. “Eles querem espremer as pessoas ativas – não matá-las ou colocá-las na cadeia – mas espremê-las para fora da fronteira”, disse ao “Times” partir de Berlim.

No seu caso concreto, por usar o seu canal de YouTube há mais de dois anos para encorajar os russos LGBTQ a serem menos fechados, promover uma maior aceitação entre a população, e receber financiamento estrangeiro, já estava à espera do ‘selo’.  Mas o facto de isso só ter acontecido agora deixo-o a pensar que o motivo foram as suas entrevistas mais recentes a críticos proeminentes da guerra e não seu ativismo.

Também a politóloga Ekaterina Schulmann, da Universidade de Ciências Sociais e Económicas de Moscovo (um raro bastião liberal), foi visada na mesma lista. A professora já contava com a decisão depois de a polícia ter exigido mais informações sobre os seus laços com a instituição de ensino. Ademais, como apresentadora de um talk-show político no YouTube com quase um milhão de subscritores, descreveu a invasão como uma “catástrofe”, e folhetos com o seu rosto e a frase “Ela apoia os nazis ucranianos” foram pendurados numa das suas antigas residências.

Seis pessoas ligadas a ela já foram detidas, incluindo três acusadas de desvio de fundos públicos, num caso que muitos consideram politicamente motivado. “Em breve será impossível trabalhar como profissional na minha área na Rússia”, afirmou.

Analistas e figuras da oposição dizem que a designação, que também pode ser vista como uma validação do seu trabalho, é uma forma de aumentar a repressão que está a contribuir para o aumento de exilados. São já dezenas de milhares os russos que fugiram do país desde a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, acreditam.

Em causa estão cidadãos altamente qualificados que decidiram que não queriam e não conseguiam mais viver num estado autoritário. Muitos nem sequer estão diretamente envolvidos na política – especialistas em tecnologia, empreendedores, designers, atores e financeiros –, mas na economia e sociedade global, provando que a lei sobre agentes estrangeiros se estendeu para além da histórica associação a espiões e infiltrados. Na prática, os designados devem colocar o rótulo com destaque em todo o seu trabalho e arquivar formulários de divulgação financeira frequentes e onerosos, explica o jornal norte-americano.

“A Rússia está a perder muitas pessoas excelentes”, disse Serob Khachatryan, que iniciou um negócio de criptomoedas em Moscovo pouco antes da invasão e agora está na Arménia a trabalhar com outros profissionais de IT para encontrar maneiras de ajudar os ucranianos e fragilizar Putin. “Vai acabar a ser apenas o exército com armas nucleares e petróleo e gás. É isso que Putin quer. Acho que a Rússia precisa de mais do que isso.”

A Rússia parece assistir a vagas de emigração em massa com alguma regularidade. Estima-se que um milhão de russos fugiram no início da década de 1920 após a revolução e a guerra civil. Em 1991, o caos que se seguiu ao colapso da União Soviética provocou outra onda de exilados.

“Parece que na Rússia uma ou duas gerações crescem e então a última revolução ou guerra acontece e parte dessa geração vai embora”, disse Grigory Sverdlin, que administrava uma instituição de caridade para pessoas sem-abrigo chamada Nochlezhka. “Está claro que a saída de pessoas ativas e educadas é ruim para a economia do país, é ruim para a cultura do país, e por cultura também incluo a cultura política.”

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