Alepo: a última batalha antes das que se seguem

Na Síria, umas armas calam-se para outras lhe tomarem o lugar. Europa e EUA não sabem muito bem o que fazer.

Goran Tomasevic/Reuters

No emaranhado de sinais contraditórios ou simplesmente incompreensíveis que emanam da Síria e da Turquia, os analistas internacionais convergem em poucas coisas, mas em relação a uma delas há poucas dúvidas: a vitória das forças fiéis ao presidente sírio Bashar al-Assad (ou seja, das armas que chegam de Moscovo) nas planícies ensanguentadas de Alepo está longe de ser a última batalha.

Do ponto de vista de quem, pouco tendo a ver com os combates, quer apenas escapar à morte, as organizações internacionais de auxílio aos refugiados e aos deslocados por motivos de guerra também convergem: o mundo ainda está para assistir à carnificina que pode resultar dos combates. A uma interminável coluna de 2,9 milhões de pessoas que correram o risco de atravessar a fronteira entre a Síria e a Turquia – foi como escapar a obuses fugindo por um campo de minas – poderão juntar-se, nos próximos dias, muitos outros milhares.

Num palco de guerra onde as teorias da conspiração valem tanto como outra coisa qualquer e a realidade tende a ultrapassar a mais dotada das imaginações, alguns analistas afirmam que a investida final sobre Alepo ficou a dever-se a… Donald Trump.
Isto é, independentemente do que o próximo presidente dos Estados Unidos tenha dito ou queira fazer em relação ao Médio Oriente – e numa altura em que a nova administração dá os primeiros passos para substituir a anterior, o que necessariamente deixa os radares políticos dos Estados Unidos em ‘stand by’ – as forças no terreno optaram pela política do facto consumado. Quando Donald Trump finalmente pegar no dossiê ‘Médio Oriente’, a opção pelo apoio aos grupos que combateram o governo sírio, os russos e os iranianos, pura e simplesmente desapareceu e o único interlocutor que estará na pista de aterragem à espera do Air Force 1 será mesmo Bashar al-Assad.

A questão turca
Miguel Monjardino, especialista em questões internacionais, é dos poucos que viram mais além no que agora se pode esperar do conflito. Considera a posição turca essencial neste xadrez e, ao contrário da maioria dos observadores internacionais, entende que o presidente turco, Recep Erdogan, saiu claramente enfraquecido do estranho episódio do pretenso golpe de Estado perpetrado em 15 de Julho passado. Por muitas razões. Desde logo porque Erdogan perdeu o capital político que ainda detinha antes do golpe junto dos na altura aliados europeus.

Recorde-se que a chanceler alemã, Angela Merkel, só telefonou a Erdogan três dias depois dos acontecimentos, dando nota clara do pouco apreço em que o passou a ter; depois, porque, em termos da NATO – onde a Turquia entrou em 1952, juntamente com a Grécia – a sua posição ficou um pouco mais fraca, como se a Turquia fosse um mal necessário de outros tempos (quando foi preciso rodear a ex-URSS com uma cortina de ferro); em terceiro lugar, as purgas que percorreram todos os setores da sociedade turca (com cerca de 100 mil presos e despedidos), à procura dos ‘traidores’ do Hizmet (de Fethullah Gullen, exilado nos EUA), enfraqueceram o quadro organizacional e institucional do país; e finalmente o exército, ‘domado’ nas últimas décadas, está destroçado – e, juntamente com os serviços secretos, dá mostras de não conseguir estancar o número de mortes resultantes dos atentados (curdos, sírios, do Daesh ou de quem quer que seja) e que, só no último ano, se conta por pelo menos três centenas.

É neste quadro que a União Europeia tem uma nova oportunidade, que Miguel Monjardino identifica como real: o conjunto de países da Europa continua a ser preponderante em termos da economia turca. É que, para além das cerca de 14 mil empresas europeias que estão instaladas para lá da ponte que une os dois lados da Turquia, os empresários daquele país têm estendido interesses um pouco por todo o planeta, acompanhando a ‘movida’ patrocinada pela globalização – a que o resto das economias islâmicas, por a rejeitarem, não têm acesso. E o lado menos bonito da história, mas tão real como o lado bonito, diz-nos que é em épocas da crise que as amizades se consolidam.

Qualquer alternativa a este ‘estender de mão’ – que pode fazer com que, finalmente, a questão dos refugiados seja tratada de uma forma séria e não apenas como uma moeda de troca ou um negócio puro e duro – é má para a Europa. Os analistas já o identificaram: um bloco no Médio Oriente formado pela Síria, Irão, Líbano, possivelmente (mais dia menos dia) Iraque e Palestina, e finalmente a Turquia, sob uma espécie de comando à distância nas mãos do Kremlin, são, dizem, péssimas notícias para Bruxelas – e também, já agora, para Israel.

A incógnita Trump
A acrescentar a tudo isto, sobrevive a incógnita sobre que caminho irá percorrer o novo presidente Donald Trump em relação ao Médio Oriente, passado que está o momento da campanha eleitoral – altura em que se desculpa tudo, mesmo as opiniões meramente boçais ou, pior ainda, aquelas que revelam profundo desconhecimento das matérias.

Os analistas temem o pior. Não apenas por causa dos particularismos identitários de Trump, mas principalmente porque os Estados Unidos revelaram, na última década, não acertar uma quanto a matérias de Médio Oriente. O presidente em fim de funções, Barack Obama, não conseguiu escapar a um percurso titubeante pelo meio das diversas forças em presença – não se sabe se porque queria agradar a todos, se porque não conseguia encontrar ninguém que lhe agradasse (e Erdogan foi um dos que o desiludiram profundamente). Recorde-se que Obama chegou mesmo a admitir numa entrevista que, do pouco de que se arrependia nos dez anos que se manteve na Casa Branca, avultava a intromissão dos Estados Unidos nas chamadas primaveras árabes (que, do ponto de vista ocidental, acabaram numa borrasca seriamente invernosa), principalmente no que se refere à Líbia.

É a democracia, estúpido
No meio disto tudo, e com parte do mundo a derivar, na melhor das hipóteses, para os braços das democracias musculadas (de que a Turquia e a Rússia são exemplos muito a propósito), alguns analistas perguntam-se se estamos ou não perante um ocaso das democracias ocidentais. Até porque, no próprio berço da democracia ocidental, a Europa, muitos países parecem estar a caminhar para a escolha, democrática, livre e tudo, de governos que apostam, sem o esconder, na supressão de algumas liberdades (Schengen é uma delas) e no endurecimento das relações com quem não é igual a nós. Ou, como diria uma antiga presidente do PSD, se calhar os europeus estão preparados para seis meses de interregno da democracia.

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