Autistas

A poupança não deve ser descurada, mas quais são as soluções que se apresentam quando não há confiança no setor financeiro e o seu retorno é tão diminuto?

A Associação Portuguesa de Seguradores (APS) publicou recentemente um estudo subordinado ao tema “A poupança e o financiamento da Economia”, que conclui que o nível de poupança dos portugueses continua a apresentar taxas reduzidas e abaixo daquelas que seriam recomendáveis, indicando que cerca de 40% das famílias portuguesas não têm poupanças.

De acordo com os dados divulgados, apesar de haver um aumento do rendimento disponível que se relaciona, sobretudo, com o decréscimo dos valores associados ao crédito à habitação (que representa cerca de 80% do endividamento das famílias portuguesas), os portugueses não dirigem a diferença da prestação do crédito para a poupança. Ao invés, regista-se um aumento do consumo.

Infelizmente, estes números não surpreendem. Há aliás uma espécie de autismo na forma como o tema da poupança é tratado, continuando a transmitir-se um pouco a ideia de que os portugueses não poupam porque não querem e porque preferem gastar o seu dinheiro em coisas supérfluas, numa espécie de consumismo desenfreado.

É claro, e creio que consensual, que a criação um pé-de-meia é muito importante, numa perspetiva de investimento ou mesmo apenas para salvaguardar imprevistos futuros. No entanto, se grande parte das famílias portuguesas não poupam, a questão que se coloca é: porquê? O que levará as famílias a não aprovisionar o seu futuro?

Decerto não será por não quererem, mas sim porque pura e simplesmente não conseguem (salvo, naturalmente, algumas exceções). Há famílias para quem a poupança não passa de uma miragem. Tomara que tivessem dinheiro suficiente para gerir o seu dia-a-dia, sem ultrapassar a taxa de esforço. Não esqueçamos que o salário médio em Portugal ronda os 800 euros por mês e que, pagas as contas, pouco ou nada sobra.

A crise que se viveu em Portugal entrou pelas casas de todos e cada um de nós, das mais variadas formas. E agora que as finanças das famílias começam de alguma forma a retomar alguma normalidade, soltando-se aos poucos a corda que tinham ao pescoço, é natural que o consumo cresça em proporção.

Isto não significa que a poupança deva ser descurada. Mas quais são as soluções que se apresentam neste panorama, quando não há confiança no setor financeiro e o seu retorno é tão diminuto? Ou quando o Estado cria impostos, como o Adicional ao Imposto Municipal sobre Imóveis, que penalizam quem investiu as suas poupanças no setor imobiliário? É este o incentivo que estamos a dar à poupança?

Os problemas já todos os conhecemos. Queremos agora conhecer as soluções.

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