Brasil/Eleições: Brasileiros aderem ao voto útil para evitar a vitória do Presidente que não querem

Se a polarização entre o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e o ex-chefe de Estado, Lula da Silva, já era uma realidade, ganhou agora força redobrada com o aproximar da votação e, com isso, o voto útil.

Lula e Jair Bolsonaro – Evaristo Sa/AFP/Marcos Corrêa/PR

Dois blocos opostos impossíveis de se atrair estão formados no Brasil a pouco mais de uma semana das eleições presidenciais e, para evitar a vitória ‘do outro lado’, sugam tudo o que está à sua volta.

Se a polarização entre o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e o ex-chefe de Estado, Lula da Silva, já era uma realidade, ganhou agora força redobrada com o aproximar da votação e, com isso, o voto útil.

O índice de rejeição dos dois é claro: Bolsonaro tem mais de 50% e Lula quase 40%.

Ainda assim, este movimento pragmático está a ganhar ainda mais força por parte da campanha do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) que procura ‘comer’ os votos suficientes dos candidatos da chamada terceira via e assim obter uma vitória já na primeira volta.

Em São Paulo, três jovens que vão votar pela primeira ou segunda vez foram unânimes ao afirmar à agência Lusa que escolheram o caminho do voto útil porque não acreditam que outros candidatos além de Lula da Silva ou Bolsonaro, tenham chances de ganhar a eleição.

“É algo ruim, mas é difícil pensar em como reverter esta situação. Os dois lados que estão polarizados têm muita identidade [com o povo brasileiro]. Mesmo que um dos lados seja ruim, as pessoas abraçam a sua ideologia como se fossem adeptos de uma equipa de futebol”, conta à Lusa Gabriel de Lima Correia, de 22 anos

Também António Pedro Reale Barbosa, de 20 anos, acredita que o “voto útil é a única opção” no Brasil há muito tempo.

“Quem busca votar com os ideais que tem não se sobressai e este voto acaba sendo um voto de protesto. O voto útil na minha opinião é a única opção”, sublinha à Lusa.

Já Ana Carolina Scott Ferraz, 22 de anos, conta que gosta das propostas da senadora Simone Tebet para a área da educação, mas não deve votar nela porque, admite, não tem hipóteses de vencer e por isso teria que votar num dos dois blocos na segunda volta.

Na capital do país, Brasília, futura residência oficial de Bolsonaro ou de Lula, Renato Augusto, de 33 anos, funcionário de uma churrascaria, natural de Salvador da Bahia, diz à Lusa que em 2018 votou em Ciro Gomes, candidato de centro-esquerda que agora está em terceiro nas sondagens, com 7% nas ultimas sondagens, e que tem vindo a perder nas intenções de voto, numa consequência, segundo analistas, do voto útil a Lula da Silva

“Agora não vou votar mais em Ciro. O Brasil precisa tirar esse genocida”, afirma, referindo-se a Bolsonaro, rematando: “vou de Lula já no primeiro turno”.

Existe também o oposto, como é o caso de Danielle Sousa, de 35 que trabalha numa empresa de gestão de condomínios em Brasília, que conta à Lusa que pensava votar em Soraya Thronicke (neoliberal do União Brasil com cerca de 1% das intenções de voto) mas que vai votar em Bolsonaro porque considera que Lula “é um ladrão”.

Contudo, a tendência é que os votos da terceira via possam ‘voar’ para Lula até porque a sua campanha está determinada em pescar entre aqueles que apoiam Ciro Gomes ou a Senadora Simone Tebet.

70% destes eleitores, segundo o datafolha, garantem que de jeito algum votarão em Bolsonaro e apenas 48% têm esse sentimento para com Lula.

As sondagens mostram ainda que cerca de um terço dos apoiantes de Ciro e Simone pensam alterar o voto e carregar no 13 (número de urna de Lula) na primeira volta.

E é precisamente isso que a campanha de Lula aposta para vencer logo no dia 02 de outubro, sem necessidade de uma segunda volta: Segundo a sondagem divulgada na quinta-feira pelo Datafolha, Lula tem 47% dos votos, contra 33% do atual Presidente brasileiro, um aumento da diferença em dois pontos percentuais em relação à última sondagem.

Considerando apenas os votos válidos a margem de erro de Lula encontra-se entre 48% e 50%, este último o ‘golden ticket’ que o leva a vencer logo à primeira volta.

Na quinta-feira, Lula recebeu mais um apoio de peso: antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso hoje a entender que apoia o ex-presidente pedindo aos eleitores que votem “em alguém comprometido com a luta contra a pobreza e a desigualdade, que defenda a igualdade de direitos para todos, independentemente de raça, género e orientação sexual, e que se orgulhe da diversidade cultural da nação brasileira”.

Num dia antes, uma carta aberta assinada por políticos e intelectuais de esquerda de países da América Latina pede a Ciro Gomes que renuncie à sua candidatura presidencial no Brasil, para facilitar a vitória de Lula da Silva nas presidenciais, pedido este que já tinha sido feito pelos músicos Tico Santa Cruz e Caetano Veloso, que apoiaram Ciro na candidatura presidencial de 2018 e que agora pedem um voto útil em Lula da Silva para impedir a reeleição de Bolsonaro, através da campanha “Vira, vira voto”.

Participaram desta campanha vários artistas como Maria Bethânia e Daniela Mercury

A juntar-se ainda, esta semana um dos autores do pedido de ‘impeachment’ contra a ex-presidente Dilma Rousseff, em 2015, anunciou o apoio ao candidato do PT e na segunda-feira de manhã, a campanha de Lula organizou mais uma ‘operação de charme’ ao voto útil, com seis antigos candidatos presidenciais brasileiros, da esquerda à direita, a apelarem ao voto no ex-chefe de Estado.

A campanha de Ciro Gomes tem-se desdobrado em ações de campanha, vídeos promocionais e entrevistas criticando este apelo ao voto útil em Lula, com Ciro Gomes a qualificar de “fascismo de esquerda” a campanha do petista.

“Há um fascismo de esquerda liderado pelo PT, eles estão querendo simplificar de uma forma absolutamente dramática o debate, querendo nada mais, nada menos, do que aniquilar alternativas. Isso é uma tragédia para um país que nem o Brasil”, declarou.

Simon Tebet, a quarta classificada com 5% das intenções de voto também reagiu: “Vejo como um desrespeito do ex-presidente Lula com a democracia e com o povo brasileiro”.

“Quem é esse Lula que está chegando? Qual é o projeto para educação? Para o desenvolvimento? Como vai tratar a iniciativa privada nessas parcerias tão necessárias?”, interrogou-se.

A eleição presidencial no Brasil tem a primeira volta marcada para 02 de outubro e a segunda, caso seja necessária, para 30.

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