Cenário económico não anula metas de descarbonização

O cenário de uma possível recessão, associada à já frágil conjuntura macroeconómica, não assusta o sector, que diz estar “bem mais preparado” do que em 2008. As fragilidades herdades da pandemia persistem, mas importa não perder o foco das metas estabelecidas.

Após a contração da economia durante o período pandémico, houve um aumento acentuado da procura por parte do mercado, nomeadamente no que diz respeito ao sector automóvel. Contudo, esta demanda não corresponde à “capacidade de entrega”. Quem o diz é o Head of Fleet da Volkswagen Financial Services, Miguel Ribeiro, na mais recente JE Talks do Jornal Económico (JE).

O responsável diz que esta discrepância entre a procura e a oferta faz parte de uma realidade para a qual contribuíram vários fatores, a começar na cadeia de produção, e que está a ter consequências de grande magnitude para os consumidores. Ora, aquando do forte crescimento da procura, os produtores de componentes automóveis não estavam preparados, depois de terem direcionado “toda a sua capacidade de produção para sectores que cresceram muito com a pandemia, como as telecomunicações e o audiovisual”. Assim, a oferta não igualou a evolução da procura e, por esse motivo, ficavam por produzir componentes. “O que hoje assistimos é algo que, nos meus 27 anos de experiência profissional no sector automóvel, nunca assisti, que é haver muita procura e não haver capacidade de entrega, pelas razões que se vê”, diz.

Quando, na cadeia de produção, se procurava chegar aos níveis ideais, colocou-se então uma nova barreira. Os problemas de natureza geopolítica na Europa levaram a uma situação em que determinados produtores, por estarem em zonas de risco, não conseguiam dar resposta à procura existente. Desta forma, aumentou o preço das matérias-primas, contexto ao qual se juntou a subida dos custos energéticos e a desvalorização do euro face a outras moedas, criando uma “combinação explosiva no caso do mercado europeu, para que não se consiga entregar uma viatura”, sublinha Miguel Ribeiro.

Atualmente, “o tempo médio para entregar uma viatura pode ir desde os sete aos 16 meses”, um retrato claro da situação de enorme incerteza vivida pelo sector.

É neste contexto que os fabricantes se vêm perante a necessidade de racionalizar custos, sendo importante que partilhem as tecnologias comuns, com o propósito de “produzir viaturas mais eficientes, menos poluentes”, o que ainda assim acarreta custos de investimento “bastante grandes”. Assim, na agenda, estão projetos para a produção mais económica dos componentes dos automóveis, de forma a que o preço final ao cliente não seja tão elevado.

Perante a possibilidade de uma recessão, já apontada por inúmeras instituições financeiras, Miguel Ribeiro garante que “os bancos estão mais bem preparados”, assim como as empresas, do que estavam nas crises de 2008 e 2013. “Estamos em pleno emprego, no passado existia desemprego. Há capacidade de rendimento das pessoas. O que está a destruir essa capacidade de rendimento é a inflação”, atira o responsável.

Outra possibilidade para o futuro é a de “alguns fabricantes automóveis deslocarem a produção para outros países.” Ora, aqui, Portugal podia ser um ‘winner’, dados os custos mais baixos da energia. Uma competitividade que decorre do facto de o país receber gás liquefeito que chega do norte de África, ao invés do gás russo. Para já, tudo não passa apenas de uma expectativa.

Apesar do difícil contexto da economia, importa não esquecer a importância da transição climática, que agora se torna mais complicada, devido à falta de matérias-primas. De acordo com a presidente do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), Teresa Ponce de Leão, o objetivo da descarbonização “é chave”. Para que sejam cumpridas as metas a que Portugal se propôs, é crucial apostar tanto na mobilidade elétrica, como na mobilidade a hidrogénio. “Temos vindo a verificar que as matéria primas não são suficientes para a transição energética e isso também afeta o sector automóvel”, lembra, antes de destacar que a economia circular é fulcral para que exista progresso neste âmbito. As possibilidades de redução do desperdício e reutilização de equipamentos são vantagens também para as empresas, pelo que há “muitos projetos” nesta vertente, refere a presidente do LNEG.

Outro fundamental para a mudança é a consciencialização por parte da sociedade em geral. Isto porque os veículos elétricos implicam “um investimento um pouco maior à cabeça”, mas irão existir ganhos ao longo do tempo de vida útil da viatura, garantem. Deste modo, esta é a melhor solução, reforça, “para o ambiente e para os utilizadores dos veículos”.

Teresa Ponce de Leão salienta ainda que existe uma boa estratégia do Governo neste contexto. Fala num “plano robusto para a produção de hidrogénio”, a que se junta o plano para o biometano, sendo que ambos podem ajudar numa questão tão fundamental que é a da redução da dependência energética.

“O mercado da mobilidade representa 25% das emissões poluentes e temos que, de facto, mudar a nossa forma de nos movermos, quer seja para a mobilidade elétrica, quer seja para a mobilidade a hidrogénio, porque a diversificação também é importante para que possamos conseguir atingir as metas”, destaca a responsável.

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