Cientistas estudam novos planos de emergência para proteção das populações em risco em caso de incêndio

O projeto envolve uma equipa da Universidade de Coimbra, em colaboração com a Escola Nacional de Bombeiros e o Centro de Inovação e Competências da Floresta e será de grande utilidade para ajudar a definir uma estratégia de proteção nos incêndios rurais.

Quando e como retirar as pessoas em risco num incêndio florestal? A decisão é altamente complexa e implica múltiplos fatores. Para ajudar as entidades competentes, uma equipa da Universidade de Coimbra, em colaboração com a Escola Nacional de Bombeiros e o Centro de Inovação e Competências da Floresta, está a estudar novos planos de emergência para as comunidades, considerando os mais diversos cenários.

O estudo chama-se “EVACUAR FLORESTA – Decisões e Planos de Evacuação em Cenários de Incêndio Florestal”, é coordenado por Aldina Santiago, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (na foto, ladeada por Hélder Craveiro e Luís Laím), e tem como principal objetivo criar um sistema de apoio à tomada de decisão, que ajude as entidades governamentais e locais “na proteção das pessoas envolvidas”.

Nos incêndios florestais, o processo depende muito da sensibilidade do comandante no teatro das operações. “Muitas das vezes, esta escolha é criticada, ou porque é feita de forma muito antecipada ou porque é feita de forma tardia”, refere Aldina Santiago, adiantando: “A proteção das pessoas de uma determinada comunidade tem de ser pensada e discutida muito antes dos incêndios; as possíveis soluções têm de estar acauteladas através de planos de emergência e evacuação; a evacuação parcial ou, em casos extremos, total é uma dessas soluções, mas não é a única”.

Numa primeira fase do projeto, iniciado há um ano e que se estende até 2023, os cientistas focaram-se na caracterização e estudo do que já existe no que respeita a estratégias associadas à proteção das pessoas em cenário de incêndio rural, não só em Portugal, mas também em outros países que são fustigados pelos fogos florestais, como, por exemplo, Espanha, Itália, Grécia, Austrália e EUA (Califórnia).

Nesses estudos, os cientistas observaram que “se antigamente a política era “ficar em casa e esperar”, atualmente começa a optar-se por evacuações preventivas. Portugal começa também a seguir esta estratégia, ou seja, nos últimos anos, a estratégia de proteção tem vindo a alterar, em resultado do paradigma dos incêndios atuais (incêndios de grandes proporções e que facilmente se propagam à interface urbano-floresta)”, refere a investigadora.

A equipa liderada por Aldina Santiago tem realizado trabalho de campo junto das comunidades escolhidas para casos de estudo, nos concelhos da Lousã e Sertã. No caso do município da Lousã, foram escolhidas as localidades de Cerdeira e Cabanões. Cabanões é uma localidade isolada, de difícil acesso, com menos de 25 pessoas, uma população envelhecida e com algumas limitações de mobilidade. Cerdeira, é uma localidade com componente turística significativa, com uma população muito variável, tanto ao longo da semana, como ao longo do ano, o que torna difícil saber quantas pessoas são e onde estão. “Esta incerteza é sem dúvida um dos fatores que dificulta a proteção destas pessoas em caso de incêndio”, salienta.

Em paralelo, com recurso a métodos numéricos avançados, a equipa está a trabalhar em modelos que permitem simular a propagação do incêndio e a evacuação das pessoas. “Estas simulações estão a ser calibradas com dados de incêndios reportados na literatura, mas esperamos vir brevemente a simular os incêndios ocorridos nas últimas semanas em Portugal. Cruzando resultados, conseguimos estudar o impacto de possíveis soluções, possíveis alternativas para proteção”, adianta Aldina Santiago.

“Os sistemas de modelação e simulação de evacuação «são ferramentas essenciais para planeamento e tomada de decisão. Durante a evacuação e o incêndio, o comportamento das pessoas também é um fator determinante; o que as pessoas fazem, e quando o fazem, depende muito da distribuição no espácio-temporal dos eventos num cenário de catástrofe, sendo a educação da população para esta temática igualmente determinante para o sucesso deste processo”, conclui.

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