Crescimento da indústria farmacêutica exige reindustrialização e convergência interministerial

O diretor de Acesso ao Mercado e Assuntos Externos da GSK, Guilherme Monteiro Ferreira, alerta que “as notícias não são boas” para o sector e que Portugal está a ficar para trás face aos pares europeus. A reindustrialização é um desafio e a “suborçamentação” um problema, considera.

Guilherme Monteiro Ferreira considera que os últimos dois anos, com o cenário pandémico, trouxeram “muitas lições” ao sector farmacêutico quanto ao caminho a seguir, mas alerta que não depende só do sector. O diretor de Acesso ao Mercado e Assuntos Externos da GSK louva “todo o compromisso que a indústria farmacêutica teve para garantir que não iam faltar medicamentos e vacinas aos cidadãos”.

Este, juntamente com a inovação desenvolvida durante a pandemia, são exemplos dos “grandes esforços conjuntos” que a indústria deu. “Podemos dizer de boca cheia que foi graças ao esforço da indústria”, sublinha Guilherme Monteiro Ferreira.

“Há uma memória relativamente curta daquilo que se passou, por parte dos nossos governantes”, acusa o responsável da farmacêutica, garantindo ainda que “agora que mostrámos o nosso valor à sociedade, está na altura de avançar” para outro patamar nas questões de saúde. “A pandemia ensinou-nos o valor da vacinação”, recorda Guilherme Monteiro Ferreira, salientando que “as notícias não são boas” para o sector, porque o mesmo anda “atrás dos indicadores”.

“Portugal investe 65% daquilo que é a média do seu orçamento para a saúde”, especialmente comparado a outros países europeus, garante. “Não é possível competir. Haverão sempre barreiras”. O responsável da GSK explica ainda que o país tem “um problema de suborçamentação, que nos coloca na cauda da Europa”.

Por esta posição, o participante do primeiro painel do debate culpa a burocracia nacional, que atrasa a entrada de novos fármacos e castra a inovação do sector. Guilherme Monteiro Ferreira adianta ainda que em Portugal só estão cerca de 50% dos medicamentos autorizados em território europeu.

Para contornar este cenário, o líder garante que o único caminho é a reindustrialização, mas que nesse caso o que vai ser chave “são os incentivos que vão ser dados”. “Temos que nos lembrar porque é que as cadeias de valor passaram para fora da Europa”, avisa ainda. “Devemos tirar lições do que já aconteceu mas ver como é que podemos tornar Portugal mais competitivo para atrair investimento estrangeiro”, considera.

Além de uma aposta na ressureição industrial europeia, Guilherme Monteiro Ferreira considera que a solução terá também que recair sobre os decisores políticos. “Temos realmente que ter políticas de saúde em todas políticas”, ou seja, uma abordagem interminesterial para a saúde. “Não pode estar só no ministério da Saúde, tem de estar no ministério das Finanças, no ministério da Economia… Até na Segurança Social”, sublinha.

“Tem de haver uma integração de esforços para ser um país mais competitivos, mas também para podermos ser competitivos com outros países da Europa”, remata.

Neste mesmo painel, participaram também Daniel Torres Gonçalves, sócio da PRA – Raposo, Sá Miranda & Associados; Filipe Novais, diretor-geral da Astellas Farma; e Sérgio Alves, Country President da AstraZeneca Portugal.

No segundo painel será debatida “A Importância da Inovação e Desenvolvimento para o futuro da Indústria Farmacêutica”, que conta com a participação de Filipa Mota e Costa, diretora-geral da Janssen Portugal; e de João Norte, Market Access & Corporate Affairs da BIAL.

O Fórum da Indústria Farmacêutica é transmitido pela JE TV. Assista em direto ou reveja aqui.

Fórum Indústria Farmacêutica. Assista aqui em direto

 

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