Entrevista Luís Miguel Cintra: “Nunca aceitaria o papel de deputado”

Uma vida em revista desde a influência dos pais ao papel como encenador, passando pela fundação da Cornucópia e pela doença que o afastou dos palcos, mas não o derrotou.

O seu pai, Lindley Cintra, foi professor e uma das maiores autoridades na Filologia e Linguística; a sua mãe foi professora. Que influência exerceram em si?
Houve influência deles em tudo, sobretudo no arranque da vida. Tenho a noção clara de que o ambiente em casa, ainda antes de ir à escola, é fundamental para a vida inteira. Tive a noção disso até pela comparação dos meus irmãos – como era o primeiro fui estimadíssimo, andaram comigo para toda a parte. Acrescentou-se a isso o convívio com as pessoas que visitavam a casa dos meus pais e o elenco de professores que tive ao longo da vida e é inacreditável. Tive os melhores professores que podem imaginar-se no liceu e na Faculdade, não eram só técnicos que ensinavam, mas personalidades muito inteligentes e marcantes. Como Mário Dionísio, uma pessoa fundamental para mim.

Em que sentido?
Ao responsabilizar-me pela minha vida. E acabou por ajudar-me na escolha de Letras, pois ainda tive a ideia de ir para Arquitetura. Aprendi com ele que ser artista é uma forma superior de responsabilidade pública. São os artistas que levam para a frente o pensamento humano e antecipam-se aos movimentos sociais.

Foi também por isso que quis ser ator?
Havia um tipo de sensibilidade toda educada para as artes, os meus pais sonharam que eu fosse artista. Aprendi violino, tive aulas de música e artes plásticas, muito museu visitei quando era miúdo! O meu pai gostava de explicar tudo ao pormenor. Tenho saudades daquele mestre que estava ali em casa, de porta fechada, sempre a trabalhar. Mas, depois do jantar, podia bater à porta dele se tivesse alguma dúvida para me ajudar.

No começo dos anos 70 passou dois anos no teatro de Inglaterra como bolseiro da Gulbenkian. Que significado teve para si?
Os meus anos de Faculdade foram extraordinários porque havia vida universitária. Convivi com muita gente que me educou, foi graças aos meus colegas que comecei a fazer teatro na Faculdade de Letras. Senti que precisava de uma base técnica mais forte, embora fosse contra o teatro inglês, pois considerava-o antiquado – não admitia o papel do encenador, a criação era sobretudo o texto e a capacidade dos atores em fazerem viver aquele texto, o resto fantasias. Têm alguma razão, mas considerei que o encenador é que era o grande criador dos espectáculos.

Como era o ambiente?
Fui para uma escola impecável onde se fazia o contrário de cá: não ter muitos alunos para ver se há mais propinas, mas ser um grupo limitado com ambiente muito familiar e centrado na personalidade de cada aluno. Abriu-se um mundo para mim com o convívio junto de pessoas de outras nacionalidades. O diretor da escola era um trabalhista à antiga, grande admirador do Bernard Shaw, fazendo gala em ter alunos working class.

E cruzou-se com Jorge Silva Melo?
Tinha-me tornado muito amigo dele, mas ficou em Londres a estudar Cinema. Eu estava em Bristol e muitas vezes nos encontrámos em Londres ao fim-de-semana para ir ver espectáculos que me serviram bastante.

Em 1973 fundaram a Cornucópia…
Muito levado por ele que veio primeiro. Tínhamos ido ao Festival de Avignon no verão de 68, vindo para Portugal com a ideia de eu dirigir o primeiro espectáculo na Faculdade. E tive grande solidariedade dos outros alunos que se prestaram a fazer esse espectáculo. Deixei de estudar, o Jorge veio um pouco desconsolado com a escola de cinema de Londres, começou a colaborar com alguns grupos independentes de cá e dessa colaboração saiu a possibilidade de começarmos uma companhia. Exemplos como os Bonecreiros e, logo, a Comuna; o Teatro Moderno de Lisboa; a Luzia Maria Martins ou o Carlos Avilez disseram-nos que era possível fazer. E isso marca também uma diferença face à atualidade.

Porquê?
Porque a ideia era fazer grupos de pessoas que eram todos artistas, contrários a ter um patrão, decidindo de forma coletiva com os textos e encenadores que quisessem. Agora anda tudo à procura de ter um patrão.

O que ensina o teatro clássico sobre a vida?
Tinha lido muito clássico nos nossos estudos e foi uma maneira de fugirmos à censura. Brecht, grande obsessão para toda a gente, seria impossível por causa da ditadura e começámos com os clássicos, ficando fiéis a isso. A ideia era, através dos clássicos, treinar o pensamento das pessoas em relação ao teatro de um modo diferente, habituar o espectador a ter espírito crítico sobre o que via e fazê-lo pensar sobre a atualidade com algo tão diferente.

Quais são os segredos de uma boa encenação?
Diz-se, e é um bocadinho verdade, que a época dos encenadores acabou. Já ninguém tem aquilo que foi a bandeira do século XX em relação ao teatro por questões económicas. O encenador foi crescendo de importância, começou a tecer com as encenações um discurso paralelo ou crítico ao da própria peça, criou ambientes plásticos próprios, diferentes dos que vinham nas didascálias das peças. Começou a criar uma espécie de poética sua que se apropriava dos textos. Fui educado assim e continuo a gostar desta prática porque é um meio expressivo muito importante e introduz um outro ponto de vista numa capacidade de intervenção com pensamento que toma forma cénica através das artes do encenador e dos atores.

O que é mais importante?
Para mim, é muito importante o pensamento do encenador sobre a obra que se está a representar, a sua capacidade de análise e de transmitir isso aos atores, conversando, correndo o risco de influenciar com capacidade de sedução muito grande face aos intérpretes e, sobretudo, gostando dessas pessoas. O Manoel de Oliveira, com quem me dei muito bem por perceber as suas técnicas quase arcaicas, dizia muitas vezes: ‘Sabe, Luís, a direção de atores só tem um segredo – saber fazer a distribuição.’ E penso que tinha razão, porque os encenadores que corrigem a solução cénica dos atores fazem mal. Depende muito da relação com o ator e também de uma noção de espaço, mais do que decoração, em relação àquilo que é a parte cénica.

Manoel de Oliveira é o seu realizador favorito?
Era uma pessoa de quem gostava muito e tinha uma qualidade que muito poucas vezes encontrei: a fidelidade absoluta a si próprio. Podia ter toda a gente contra ele, ter as maiores incertezas, mas nunca iria fazer algo de que não gostasse. E isto é de uma coragem grande, sobretudo nos tempos em que vivemos, pois os critérios são de mercado para toda a gente. Ele nunca os teve e, estranhamente, tornava-se um valor de mercado. Foram ele e o Paulo Branco que fizeram a entrada do cinema português no circuito internacional. Gostei imenso de assistir a isso e de ter a oportunidade de partilhar com eles essa ousadia, essa lata…

Como é que o “descobriu”?
Foi o “Ato da Primavera” que me abriu os olhos para a obra daquele homem e percebe-se logo: quem começa um filme daqueles com o princípio do Evangelho de São João – “no princípio era o verbo e o verbo se fez carne” e por aí adiante –, partindo disso para uma representação de si próprio como realizador do que vai ver e o que vai ver é uma representação dos camponeses, numa aldeia de Trás-os-Montes, que fazem uma obra sacra sobre a paixão de Cristo… quer dizer, são tantos níveis de reflexão todos ligados sobre o que significa fazer espectáculo que fiquei logo encantado! E aprendi muito, tal como com Mário Dionísio, mais no sentido da atitude do que das soluções.

Disse, numa entrevista ao DN, sobre Sophia de Mello Breyner, que era “bonita por dentro e por fora”. Tem encontrado outras pessoas assim?
Muitas. Entre pessoas marcantes para mim, o Ruy Belo, por exemplo: não era bonito por dentro e por fora como a Sophia, era mais bonito por dentro, mas, mesmo aí, tinha partes muito feias. Mas era um grande poeta e com uma grande fidelidade ao real. Noutro género diferente, mais ou menos da mesma geração, a Luísa Neto Jorge. Entre os professores, Orlando Ribeiro, um grande mestre de geografia humana, com quem uma vez por semana os alunos ouviam música clássica e comentavam. Foram pessoas únicas e com uma visão humanista da sociedade e do ser humano, capazes de relacionar todas as atividades do ser humano ao mesmo tempo. O ser humano pode ser algo extraordinário, mas vivo numa deceção permanente com a redução das pessoas e das coletividades a critérios técnicos, de lucro e economicistas.

Nesse sentido, vê o caminho de Portugal com preocupação?
Nunca tive tanta noção de que Portugal é só uma pecinha no mecanismo global. É um país pequenino e a responsabilidade política também é pequenina. Apesar de tudo, sinto no atual Governo a atitude de fazer um esforço para não se alhear do que se passa na vida real. Mas lembro-me de ter ficado dececionado com declarações dos socialistas e de António Costa sobre a defesa da eficácia, tornando Portugal numa sociedade em que tudo fosse de qualidade, um elogio à técnica e capacidade de produzir.

O problema é maior?
O problema é do mundo inteiro e não é de produzir cada vez mais depressa, melhor e mais barato para que ganhem mais umas pessoas que não se sabe quem são. Quando vejo Lisboa e o Porto de pernas para o ar e de cócoras diante dos turistas é algo que me faz muita aflição, porque tenho a sensação de que vai tudo ficar parecido com outros lugares do resto da Europa apenas com o objetivo de não lhes ficar atrás. Mas o resto da Europa já deu provas de que aquilo a que foi dar a competência e a eficácia foi um beco com manifestações horríveis, racismo monstruoso, divisão de classes. Para quê ser igual? Essa colonização de uma população inteira é algo que me apavora.

Também o apavora a União Europeia?
Completamente. Não percebo como tanto político inteligente – ou melhor, percebo, é o poder do dinheiro – se deixa embalar numa coisa que veio destruir a originalidade da Europa e a sua grande riqueza: o contributo para a valorização da História.

Como olha a Rússia de Putin?
Hoje em dia é como se ainda existisse um país com o sonho americano na população. E há uma direção política que, no fundo, está a fazer, de modo mais brutal e primitivo, o jogo da mesma ordem de valores que o resto do mundo – uma entrada na economia de mercado como se passasse por cima de tudo o que aquela gente viveu durante uma quantidade de tempo.

Está preocupado com a vitória de Trump?
É um pesadelo tão grande que parece não ser verdade. O que mais me impressiona são os milhares e milhares de pessoas que acreditam naquilo! São técnicas de aldrabar! Como é possível haver pessoas naquele nível num país e numa democracia como a América? Devíamos aprender com isso e perceber que deve passar tudo por uma reforma radical da educação. Os sistemas eleitorais são falsos, já não correspondem à representatividade dos cidadãos, levam ao seu afastamento, passando a ver as eleições e os seus representantes como quem vê um espectáculo de baixo nível. Também na Europa deixou de haver diferenças ideológicas, passou tudo a ser um jogo de interesses. Nunca aceitaria o papel de deputado, porque sentiria que estava a fazer uma fraude permanente.
Há pouco mais de um ano, anunciou que deixava os palcos como ator em função da doença: foi a decisão mais difícil da sua vida?
Não… Quer dizer, tem-me custado horrores, porque sempre gostei mais de representar do que de dirigir e a minha maneira de dirigir teve sempre a ver com os próprios espectáculos onde entrava e, portanto, custa muito. Por outro lado, tenho a noção de que é uma enorme responsabilidade apresentar-me ante o público e não suporto começar a fraude por mim próprio. A doença de Parkinson é muito estranha: afeta a personalidade, mas a cabeça funciona muito bem e, de certa maneira, com uma lucidez maior. Mas separada do corpo. Sonha-se fazer o papel de uma certa maneira, pensa-se e, quando chega o momento, não se pode fazer porque o corpo não deixa, ou seja, há uma sensação de frustração quando deveria ser de prazer. Mas não tenho muitas razões de queixa da vida porque, embora termine cedo, fiz muitos papéis que outros atores sonharam durante toda a vida e não conseguiram chegar lá. E, como vamos lançar o livro-catálogo sobre a segunda parte da história na Cornucópia, passei os olhos sobre as fotos do que foram aqueles espectáculos e dá um certo orgulho ver o que se fez.

O que procurou transmitir como ator?
Tive sempre a noção de que as peças não transportavam necessariamente alguma mensagem. Aquilo que foi o erro de muitas pessoas de esquerda, no sentido de que o nosso discurso e gritar slogans havia de contaminar os outros, nunca me convenceu. Acreditei que era possível, através do teatro, uma atenção ao ser humano e à inteligência sobre os comportamentos e as dificuldades de viver que seria uma abertura de portas na cabeça das pessoas. Sempre gostei de coisas que exigissem algum esforço conjunto do espectador connosco.

Entrevista publicada a 9 de dezembro na edição impressa do Jornal Económico

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