Escolas “não podem viver desligadas” da economia real

Escolas e empresas devem trabalhar a proximidade para se tornarem um “ecossistema único”, avisam líderes de duas instituições. Os desafios da economia real, como a inflação e a guerra vão sentir-se na hora da decisão.

As escolas de formação de executivos devem aproximar-se cada vez mais das organizações (o contrário também deve acontecer) e dos desafios da economia real, avisam responsáveis do ISEG Executive Education e do ISCTE Executive Education. Ambos reconhecem que o contexto global, pautado por incerteza e instabilidade, pode levar a um adiar de decisão por parte dos inscritos a partir do próximo ano, mas garantem que esse cenário não se verifica, pelo menos, para já. Aliás, acreditam, será uma oportunidade para a formação executiva se reafirmar junto das organizações.

Na mais recente JE Talks, o Head of Overall Market Solutions do ISCTE Executive Education, Paulo Martins, começa por explicar que a inflação, incerteza, insegurança e medo serão determinantes para entender os desafios das escolas de formação de executivos. Este cocktail levará “a um adiar de qualquer decisão, na parte dos indivíduos, e isso nota-se perfeitamente”, salienta. “As decisões não são tomadas de impulso, mas nas empresas há orçamentos [dedicados à formação] e não se vê uma retração ainda”.

Paulo Martins vai mais longe e diz que no campo organizacional se verifica precisamente o contrário: “do lado das empresas há uma necessidade de avançar com estes temas da formação”. Mas as escolas estão longe de lançar foguetes porque, como explica a diretora do ISEG Executive Education, Filipa Cristovão, o ritmo de intenções dos indivíduos e das organizações acontece quase que em contra-ciclo, pelo que só se saberá o verdadeiro impacto do adiamento de decisões quando os programas do próximo ano arrancarem. É esperado que a instabilidade económica, que é sentida mais depressa pelos inscritos autónomos, leve a uma hesitação na hora de investir em formação executiva.

Contudo, os representantes das duas instituições de Ensino Superior acreditam que há outros fatores em jogo no mercado, que poderão acabar por evidenciar o potencial das formações de executivos. “Há uma escassez de talento a todos os níveis, sejam funções mais técnicas, generalistas… É transversal em qualquer atividade”, garante Paulo Martins. Os anos de pandemia, diz ainda, contribuiram muito para o estado da situação, que pode até gerar junto dos colaboradores das empresas um “nível de insegurança, de sentido de não-pertença”, até porque em solo europeu “estamos no epicente desta insegurança”, garante.

“Nenhum sector da atividade pode estar passivo à espera do que haverá, a nível de estragos”, diz Martins, acrescentando que “a formação de executivos e aquilo que ela pode aportar de valor para os indivíduos e organizações” ganha um novo destaque.

“De uma forma geral, já todos nós conseguimos interiorizar que aquela ideia de um emprego para a vida (…) e de prosseguir calmamente uma carreira até um dia ter uma reforma dourada – era um conceito muito interessante, mas já não é válido”, diz Filipa Cristovão. A responsável do ISEG Executive Education defende a pés juntos a importância do life-long-learning e acredita que essa necessidade está intrinsecamente ligada à urgência das escolas se relacionarem com as empresas: “Temos de trazer as empresas para dentro dos nossos processos”.

Paulo Martins anui a esta tendência, até porque essa ligação às empresas está no ADN da formação executiva do ISCTE. Filipa Cristovão não esconde que o ISEG, por vezes, é visto como o the new kid on the block, mas por estar “em ciclos de vida diferentes” e num período de afirmação e crescimento. Para a mesma, essa ligação ao mundo empresarial “é fundamental”, porque “as escolas, e em particular, as escolas de negócios, não podem viver desligadas daquilo que é a economia real, daquilo que é o tecido empresarial do país, os desafios da economia portuguesa e europeia”. Essa ligação, garante, é essencial “e deve ser o mais umbilical possível” para que as escolas consigam manter-se atualizadas, antecipar tendências e preparar as competências que as empresas vão necessitar. “É essencial trazer as empresas para dentro das escolas e fazer o inverso também: levar as universidades para dentro das empresas, das mais diversas formas, e manter um contacto muito estreito de forma a que haja aqui, de facto, uma relação simbiótica e sinérgica”, termina.

Por sua vez, Paulo Martins acrescenta que “mais do que duas entidades estanques”, as empresas e a academia devem caminhar no sentido de se tornarem “um ecossistema único”, que consiga tirar o pulso às necessidades correntes e antecipar as futuras.

Veja esta conversa na JE TV, em jornaleconomico.pt

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