Espanha quer avançar com gasoduto que fica a mais de 750 quilómetros de Portugal

Governo espanhol está empenhado num gasoduto que vai servir para enviar gás argelino para o norte da Europa, deixando Portugal e o porto de Sines para trás. Madrid em silêncio sobre terceira interligação entre Portugal e Espanha.

Reuters

O novo gasoduto entre Espanha e França pode estar operacional “no lado sul” em “oito ou nove meses”, disse hoje a ministra espanhola da Transição Ecológica.

“A interligação pelos Pirenéus catalães pode estar operacional em oito ou nove meses do lado sul da fronteira”, afirmou Teresa Ribeira hoje em entrevista à “TVE”.

As declarações chegam depois de o chanceler alemão Olaf Scholz ter defendido na quinta-feira construção de um gasoduto entre Portugal-Espanha e a Alemanha para reduzir a dependência gasista de Berlim face à Rússia.

Mas este gasoduto – o MIDCat – fica localizado a mais de 750 quilómetros do local na fronteira portuguesa onde está projetado passar a terceira interligação de gás natural entre Portugal e Espanha. A visão de Portugal como porta de entrada de gás natural na Europa através do porto de Sines continua distante, sem o respaldo em Madrid.

A interligação projetada tem início em Celorico da Beira, Guarda, seguindo depois para Vale de Frades, distrito de Bragança, entra em Espanha e depois liga-se à rede gasista espanhola em Zamora. Em 2018, a REN – Redes Energéticas Nacionais previa que o projeto estivesse totalmente completo em 2028.

Já o gasoduto entre Espanha e França serviria principalmente para transportar o gás natural da Argélia que chega a Espanha através do gasoduto Medgaz que atravessa o Mediterrâneo e que entra na Europa através de Almeria na costa sul espanhola. Atualmente, existem outras duas interligações, mas são insuficientes para o gás que se considera necessário no próximo inverno no norte da Europa.

O projeto com 190 quilómetros foi lançado em 2003 e iria ter início em Hostalric, a norte de Barcelona, e fazer a ligação à rede francesa em Barbaira no sul de França.

Depois de muitos avanços e recuos, em 2019 chegou a machadada final: os reguladores em Espanha e França rejeitam o projeto devido à falta de viabilidade financeira e os impactos ambientais. Ao mesmo tempo, os projetos entre Portugal, Espanha e França têm ficado de fora dos envelopes financeiros comunitários.

Mas a costa mediterrânica oriental de Espanha também conta com três terminais de armazenamento e regaseificação de gás natural: Cartagena, Sagunto e Barcelona, isto é, estes portos podem receber gás de outros países para injetar diretamente na rede e enviar para o norte da Europa, com Portugal a ficar para trás.

O primeiro-ministro português disse que o país tem os “trabalhos muito avançados” neste projeto: “são cerca de, creio, 160 quilómetros entre Celorico da Beira e o ponto da fronteira onde amarramos com a rede espanhola”.

“Há um traçado que agora está definido, cuidadoso, que protege os valores ambientais, que importa proteger também no Vale do Douro. Portanto, do nosso lado as coisas têm vindo a avançar, da Espanha também”, afirmou hoje, citado pela “Lusa”.

“A existência desta interconexão da Península Ibérica com o resto da Europa é uma ambição antiga” de Portugal, que tem sido confrontada “com uma dificuldade, que são as limitações ambientais que a França tem invocado sobre o impacto do gasoduto na travessia dos Pirenéus”. A resistência francesa, salientou, tem “atrasado bastante” a interligação hispano-gaulesa.

Já na quinta-feira, em reação às declarações do chanceler alemão, António Costa disse que a “Alemanha pode contar 100% com o empenho de Portugal para a construção do gasoduto. Hoje para o gás natural, amanhã para o hidrogénio verde”. “o Porto de Sines poderá ser utilizado como plataforma logística para acelerar a distribuição de Gás Natural Liquefeito (GNL) para a Europa”, afirmou, segundo a “Lusa”.

Esta sexta-feira, a governante espanhola destacou que é “fundamental” a colaboração de França para que o gasoduto seja ligado do lado de lá da fronteira. “Desde o primeiro momento, que a nossa intenção é que esta interligação fosse financiada como um projeto europeu, que tínhamos de trabalhar de forma simultânea com o Governo francês. Faz pouco sentido andarmos a correr para que depois haja um beco sem saída no lado francês porque não se consegue evacuar com esse gás”.

“A interligação com a Catalunha é um projeto que não avançou porque não era viável economicamente num contexto em que o gás russo era muito mais barato”, disse, olhando para o passado recente. Sobre a terceira interligação Portugal-Espanha, Teresa Ribera não disse nem uma palavra.

A ministra revelou que está a trabalhar com as gestoras de redes de Espanha e de França para “acelerar uma primeira interligação com menor complexidade”. Depois, a Alemanha será convidada para integrar o grupo de trabalho para “melhorar as interligações com França”.

“A grande vantagem das declarações do chanceler Scholz é que destacam que as interligações na União Europeia não são uma questão bilateral. Até agora temos agido sozinhos com França. Um interesse maior dos estados-membros ajuda a facilitar os objetivos de interligação dos objetivos europeus” devido à situação de “urgência em vários países”, afirmou.

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