Este artigo não é sobre os resultados das eleições autárquicas

O poder não é um fim em si mesmo. As eleições são um momento de devolução da decisão aos eleitores sobre a política que pretendem para os anos seguintes. O poder é um meio para a executar. 

Este artigo é sobre os dias, os meses e os anos seguintes. Este artigo é sobre necessidades do sistema democrático que devem estar sempre presentes. Este artigo é sobre um objectivo central da política: a mobilização. O significado de qualquer resultado eleitoral está dependente da motivação dos cidadãos para apoiar os eleitos e as suas decisões ao longo do tempo do seu mandato. O poder, o poder efetivo depende disso, mais ainda em democracia. Este é um tipo de regime que exige esforço.

De modo a mobilizar as pessoas, particularmente os eleitores na antecedência de períodos eleitorais, alguns decidem utilizar convicções morais para alimentar a adesão dos eleitores ao seu “projecto”. A conhecida divisão entre os do bem e os do mal. Vemos isto em quase todos os filmes, mas também na política. Este enquadramento moral da acção política utiliza uma linguagem mais emocional e de tudo-ou-nada ou de valores “inquestionáveis”.

Os efeitos secundários desta estratégia são uma intolerância a quem tenha uma visão antagónica, reduzindo a vontade de interacções entre oponentes políticos, crescente animosidade em relação a estes e, por outro lado, um aumento dos sentimentos positivos face àqueles que concordam com as suas posições (e não argumentos racionais e lógicas de custo-benefício), criando uma maior clivagem e dificuldade de convivência e negociação.

Este é apenas um dos efeitos psicológicos que está presente na política e que pode explicar a dificuldade que muitas vezes existe, no pós “combate” eleitoral, em fazer acordos de governação ou mesmo construir práticas inclusivas nas organizações públicas que nos servem. Esta inclusão e construção de organizações inclusivas é essencial ao desenvolvimento económico e à coesão social como tão bem conceptualizaram e exemplificaram no seu livro “Porque falham as nações” Daron Acemoglu e James A. Robinson.

Um pós-eleições como tempo de pontes beneficiaria os cidadãos. Estas são condições para comunicação e diálogo, alguns consensos, denominadores comuns e, claro, concordar em discordar nas diferenças. É desde este momento que se constroem alternativas, não apenas em véspera de eleições, na discussão persistente, mas empática das diferentes propostas e soluções, enriquecendo a tomada de decisão, reduzindo os enviesamentos e aumentando a integridade das políticas públicas.

O poder não é um fim em si mesmo. As eleições são um momento de devolução da decisão aos eleitores sobre a política que pretendem para os anos seguintes. O poder é um meio para a executar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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