Lentidão do BCE e crise energética levam analistas a crer que euro continuará a cair face ao dólar

A diferença no ritmo de normalização da política monetária na zona euro e nos EUA prejudicou a moeda única, argumentam vários especialistas, e a possibilidade de um corte no fornecimento de gás russo agrava significativamente as probabilidades de uma recessão. O cenário nos próximos tempos não deverá melhorar.

O euro caiu até à paridade com o dólar americano esta terça-feira, atingindo o valor mais baixo em 20 anos como resultado de uma queda de perto de 20% nos últimos 14 meses, e a tendência não se deverá inverter nos próximos tempos, projetam os especialistas, dada a probabilidade crescente de recessão na Europa.

O par cambial tocou a paridade durante a sessão de terça-feira, algo que não acontecia desde o início do século. A moeda única tem vindo a cair este ano, enquanto o dólar ganhou terreno nos últimos meses, suportado por uma política monetária mais restritiva e taxas de juro em crescendo.

“A Fed (Reserva Federal) continua comprometida em controlar a inflação através de um aperto implacável das políticas monetárias”, refere a análise de Ricardo Evangelista, diretor executivo da ActivTrades Europe. “O corte completo do gás russo para a Europa é agora uma perspetiva realista, um cenário que agravaria a crise energética em curso no continente e aumentaria a já elevada probabilidade de uma recessão na zona euro”, acrescenta.

Estes parecem ser, para a generalidade dos analistas, os dois principais motores da queda do euro face ao dólar, com o mercado a agravar as suas perspetivas depois do corte temporário do fornecimento de gás natural russo através do Nord Stream 1. Apesar de ser uma ação anual de manutenção, as dúvidas sobre a possibilidade de o fluxo de gás não ser retomado depois desta semana adensaram-se, levantando ainda mais preocupações com a possibilidade de uma recessão na Europa.

“A situação é muito semelhante ao que se viveu no início da década de 2000, com o sell-off a arrancar do mesmo ponto”, destaca a análise da FxPro. Este cenário estende-se ao cenário económico, argumentam os analistas da corretora, visto que também à altura a “Alemanha estava a perder o seu estatuto como locomotiva da região, com falta de capacidade e vontade política para consolidar a zona euro à sua volta”.

A situação não deve melhorar nos próximos tempos, com a FxPro a temer mesmo “uns próximos dias e semanas nervosos para a moeda única”, especialmente caso ressurjam discussões em torno da viabilidade da união monetária.

Por outro lado, esta desvalorização faz crescer a pressão sobre o Banco Central Europeu (BCE) para agir mais expeditamente na normalização da política monetária, depois de uma “resposta lenta” que prejudicou a economia europeia face à americana, defende a análise da XTB.

Recomendadas

Valor aplicado em certificados de aforro só em outubro supera total de 2021

A procura por certificados de aforro tem-se intensificado nos últimos meses, refletindo a subida da Euribor a três meses e o consequente aumento da taxa de remuneração dos CA – já que aquele indexante integra a fórmula de cálculo da taxa de juro deste produto de poupança.

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta terça-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta terça-feira.

Inflação dos produtos alimentares na OCDE nos 16,1% em outubro, máximo desde 1974

A inflação homóloga dos produtos alimentares no conjunto da OCDE atingiu 16,1% em outubro, mais oito décimas de ponto percentual do que em setembro e o nível mais alto desde maio de 1974, foi hoje anunciado.
Comentários