Madeira: Investigadores defendem potencialidades do mar no desenvolvimento económico

O vice-presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, Victor Freitas, destacou a importância do mar para o país, em particular para a Região, “que tem já muito trabalho desenvolvido”, apesar de a Secretaria do Mar só ter surgido neste último governo.

Vários investigadores nacionais e internacionais defenderam, na passada sexta-feira, uma maior atenção para as potencialidades do mar, enquanto fonte de conhecimento e de desenvolvimento económico para o país e para o mundo. O mote foi dado na conferência “O Mar de Magalhães, 500 anos depois”, promovida pela Estrutura de Missão do V Centenário da Primeira Viagem de Circum-navegação e pela a Assembleia Legislativa da Madeira.

O Presidente da Estrutura de Missão, José Marques, referiu que este encontro pretende ser uma reflexão e um contributo sobre “o mundo que herdámos e o mundo que pretendemos construir”. Por isso defendeu que “o mar deverá ser um desígnio prioritário para Portugal e para o mundo”, sendo a “economia do mar um aspeto central” para a “promoção de melhores condições de vida e a construção de um mundo melhor”.

O vice-presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, Victor Freitas, destacou, também, a importância do mar para o país, em particular para a Região, “que tem já muito trabalho desenvolvido”, apesar de a Secretaria do Mar só ter surgido neste último governo.

O vice-presidente do Parlamento madeirense apontou como potencialidades regionais o crescente número de navios registados na Madeira, a importância das atividades marítimo-turísticas, o desenvolvimento da piscicultura, desde que compatibilizado com outras atividades, como o turismo, a investigação científica e o alargamento da plataforma marítima. “Se o mar foi o passado de Portugal, hoje sentimos que o mar é cada vez mais o presente, mas também o futuro”, concluiu.

O biólogo, investigador e professor da Universidade da Madeira Thomas Dellinger abordou “o Legado Científico e cultural da Primeira Viagem de Circum-navegação”.

O docente referiu que “Magalhães é um exemplo de persistência e esforço para provar uma hipótese teórica. O seu percurso mostra que, quando essa hipótese se mostra falsa, é necessário alterá-la. Este processo é um processo repetido milhões de vezes até ao dia de hoje na procura de conhecimento, seja ele científico ou outro. Magalhães está na base de uma sucessão de navegadores que nos permitiram conhecer a terra e o mar, tal como o conhecemos hoje”.

Salientou, ainda, que “o conhecimento que adveio da prova da forma esférica da terra, da necessidade de uma linha de data resultante da rotação da terra, e da vastidão oceânica do Pacífico serviu de base e foi uma pedra fundamental para o caminho do conhecimento subsequente”, defendendo desta forma uma maior aposta na investigação.

Para Thomas Dellinger a celebração do feito Magalhães e da circum-navegação é também o reconhecimento e a valorização da Ciência, da curiosidade científica e do conhecimento. A efetuação da viagem de Circum-navegação simboliza de forma real, a “primeira visão integral do mundo”. Uma particularidade que se manifesta de um ponto de vista geográfico, cultural, científico, socioeconómico, ou seja, uma particularidade histórica que integra uma oportunidade para ser projetada no séc. XXI. “O Mar, possuí uma grande importância para aproximar povos e bens”, defendeu.

O Antropólogo e Historiador de Sevilha José Manuel Nuñez de la Fuente debruçou-se sobre a mesma temática. O Fundador e primeiro Secretário-geral da Rede Mundial de Cidades de Magalhães, afirmou que “a viagem de Magalhães não só deu origem à primeira circum-navegação do planeta, como também representa um extraordinário legado patrimonial que simboliza as demais viagens de exploração que ampliaram a visão do mundo que habitamos”.

“Ao longo de cinco séculos a sua enorme ressonância manifesta-se em inúmeras crónicas, livros, memoriais e comemorações que refletem a marca indelével de sua universalidade”, frisou ainda, realçando que é este legado que entende que deve ser valorizado e aproveitado para o desenvolvimento futuro.

A realização da Primeira viagem de Circum-Navegação é o culminar de um dos mais importantes capítulos da História da civilização humana, “A Era dos Descobrimentos “.

“O Mar 500 anos depois: riscos e potencialidades” foi o mote para o Diretor do Observatório Oceânico da Madeira afirmar a importância da economia azul e da sua evolução nos últimos anos.

Rui Caldeira entende que as ilhas têm muito para dar à economia, à ciência e à sociedade. O investigador principal da Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação (ARDITI) apontou “cenários de colapso e de sustentabilidade da economia azul, bem como a forma como a Madeira está a trabalhar para contribuir para um crescimento informado da economia do mar”.

O Diretor do Observatório Oceânico da Madeira declarou que “hoje, o oceano é uma fonte de alimento, energia, minerais, cada vez mais de medicamentos, regula o clima da Terra e abriga a maior diversidade de vida e ecossistemas, e é um provedor de serviços económicos, sociais e culturais para a humanidade”.

Considera ainda, que é necessário, desenvolver ferramentas e atividades que possam ser transformadoras na forma como as pessoas, governos e outras partes interessadas vêm o oceano e que conhecer e entender a influência do oceano e a nossa influência no oceano é crucial para viver e agir no presente e legar um Planeta para as gerações futuras.

Dos riscos e potencialidades falou ainda o investigador e professor da Universidade de Lisboa Francisco Andrade. “No quadro global de mudança em que vivemos e que define já um novo período geológico – o Antropoceno – o Oceano acomoda, reage e integra também essa mudança”, começou por referir, enfatizando que “as alterações no Oceano não seguem nem respeitam fronteiras de qualquer tipo, nem acompanham necessariamente o ritmo e o padrão dos fenómenos mais próximos de nós, pelo que assistimos – talvez com demasiada passividade – e fenómenos “novos” e à ultrapassagem de pontos de não-retorno”.

“Se, há 500 anos, a viagem de Magalhães veio demonstrar a continuidade dos mares de um planeta finito, com todas as consequências geo-político-económicas associadas, talvez hoje precisemos de (re)tomar uma consciência renovada dessa finitude e continuidade, de construir, sobre uma visão global para o nosso Oceano único, o cenário onde queremos vir a estar no futuro que começa já hoje, e de definir e traçar os caminhos para lá chegarmos, sob pena de estarmos simplesmente a ignorar/iludir o verdadeiro significado do desenvolvimento sustentável que tanto queremos atingir”, afirmou o Investigador do MARE-Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, que coordenou e participou em diversos projetos de I&D nacionais e internacionais nessas áreas, e coordenou a Avaliação Ambiental de projetos nacionais na área do turismo costeiro.

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