Manuel Pizarro: à segunda foi de vez

O novo ministro da Saúde esteve para o ser em 2015. Ou era pelo menos essa a ideia dos que seguiam de perto a sua carreira. Sete anos depois, chega ao lugar que qualquer ex-secretário de Estado da Saúde quer, em princípio, ocupar.

Desde a sua juvenil militância na União dos Estudantes Comunistas (EUA) – na célula do Liceu Rodrigues de Freitas – que o seu ‘controleiro’ à época, o futuro vereador da Câmara do Porto Rui Sá, lhe vaticinava ambição suficiente para chegar longe e a sua ascensão ao mais alto lugar do Ministério da Saúde veio dar-lhe razão. Tarde e a más horas, dizem alguns – pelo menos aqueles que se mostraram admirados com o facto de Manuel Pizarro não ter ali chegado quando António Costa arribou ao Governo na condição de primeiro-ministro, no já longínquo ano de 2015.

Nessa altura, ou uns meses antes, Manuel Pizarro calcorreara uma parte importante das estradas do norte do país enquanto presidente dos socialistas do Porto, em defesa das virtudes de António Costa como candidato à liderança do partido. Do outro lado da barricada, defendendo a alternativa António José Seguro, distinguia-se José Luís Carneiro, presidente da federação nortenha do mesmo partido (por isso num nível superior ao de Pizarro). Feitas as contas, era de esperar que, tendo Costa vencido a batalha interna e ganho as legislativas (ou quase) escolhesse um e não o outro.

Foi o que fez, mas trocando os nomes: José Luis Carneiro seguiu para a Secretaria de Estado da Comunidades Portuguesas e Manuel Pizarro, apesar de fazer parte do Secretariado Nacional de António Costa, de ser médico e de ser ex-secretário de Estado da Saúde (entre 2008 e 2011), acabou encalhado em Estrasburgo na qualidade de eurodeputado (em 2019).

Para trás, ficava uma vida política dividida entre a máquina do PS no Porto – no interior da qual se afastava, por imperativos de consciência, de alguns dos dinossauros mais extravagantes da organização regional, cujos nomes se omitem – e as funções autárquicas, que nunca o parecem ter cansado.

Foi candidato pelo PS à presidência da Câmara Municipal do Porto nas eleições autárquicas de 2013, que perdeu para a notável revoada que constitui a primeira vitória de Rui Moreira, um independente que, diziam os socialistas, tinha poucas hipóteses de ganhar. Ganhou mesmo, mas a magreza da vitória acabou por determinar uma aliança – que alguns apelidaram de contra-natura – com Manuel Pizarro, com quem estabeleceu um acordo de governação que levou o médico à tutela do pelouro da Habitação e Ação Social.

Segundo todas as fontes, ou quase, o seu papel à frente daquele pelouro foi genericamente notável, tendo Pizarro dado mostras de conhecer em profundidade a cidade onde nasceu, em 2 de fevereiro de 1964. Só Rui Sá, algures no tempo, teve dúvidas sobre a eficácia da atuação do seu antigo ‘compagnon de route’.

Mas alguma coisa aconteceu nas eleições seguintes e, depois de um namoro um pouco escandaloso com Rui Moreira para que este aceitasse a formação de uma lista conjunta, alguém conseguiu estragar o arranjo (esse alguém já não está na Câmara do Porto) e o PS averbou mais uma derrota, desta vez com um sabor a dar para o amargo.

Foi nessa altura que Manuel Pizarro decidiu que já tinha dado à cidade tudo o que ela dele precisava. E foi viajar.

Mas, mal Marta Temido tremeu e finalmente caiu, o nome de Manuel Pizarro passou a constar da ‘short list’ dos ministeriáveis para a substituir. Pizarro, que ninguém duvida ter um conhecimento profundo da área, chega numa altura difícil. Por todas as razões que se sabem e pelas que a inflação e a deriva do próximo orçamento para a Defesa (pensam alguns) ainda hão de acrescentar.

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