Miguel Maya: “A cada dia que passa os impactos do conflito na Ucrânia aumentam exponencialmente”

O presidente do BCP, Miguel Maya, falava na conferência da Ordem dos Economistas que tem como tema “Portugal: Objetivo Crescimento”, sobre os quatro desafios para os bancos que podem condicionar o apoio à economia. A saber: Endividamento; Alterações Climáticas; Invasão da Ucrânia e Cibersegurança.

Cristina Bernardo/JE

O presidente do BCP, Miguel Maya, falava esta sexta-feira, na conferência da Ordem dos Economistas que tem como tema “Portugal: Objetivo Crescimento”, sobre os quatro desafios para os bancos que podem condicionar o apoio à economia. A saber: Endividamento; Alterações Climáticas; Invasão da Ucrânia e Cibersegurança.

Para o presidente do banco, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia tem um impacto negativo cada  vez maior na economia. Ao contrário da crise pandémica,  “a cada dia que passa sem um acordo de paz os impactos na economia crescem exponencialmente”.

A Europa depende em matéria de energia fortemente da Rússia. As importações de gás natural da Rússia são atualmente superiores ao que eram em 2015 e representam cerca de 40% do consumo, números avançados por Miguel Maya.

Portugal tem uma forte dependência energética do exterior, lembrou.

“Felizmente não dependemos muito da Rússia, só cerca de 4% das importações de petróleo e gás”, disse lembrando que beneficiamos também do relevante investimento efetuado na área das renováveis.

Há 67% da produção elétrica em Portugal com origem em renováveis. “Mas são por demais evidentes os impactos da subida dos preços da energia na competitividade, diria mesmo na viabilidade de inúmeras empresas portuguesas. É imperativo desenhar apoios pontuais do Estado que protejam o tecido empresarial desta situação conjuntural que consubstancia uma falha de mercado”, apelou.

Esta vulnerabilidade ao conflito no Leste está ligado ao tema da divida pública, “estaríamos certamente melhor, mais resilientes, se tivéssemos capacidade financeira, contas públicas equilibradas e saudáveis, para suportar estes choques”, defendeu o banqueiro.

O primeiro desafio na perspetiva do CEO do BCP é o elevado endividamento da economia, e que apesar da melhoria ainda representa um risco. Em 2012, em percentagem do PIB, a dívida pública e privada era 342%. “Uma situação profundamente desequilibrada, que não só condiciona o crescimento como nos torna altamente vulneráveis a eventos pontuais, alterações de contexto e às vontades externas”, disse Miguel Maya. De lá para cá houve uma evolução positiva, “só interrompida pela pandemia. Chegámos ao final de 2020 com 301%”, lembrou.

O presidente do Millennium BCP frisou a evolução da dívida pública. “No setor publico houve uma redução relevante, mas manifestamente insuficiente. De 129% para 117% em 2019, ou seja, menos 12 p.p (compare-se com os menos 34 p.p. do endividamento das empresas)”.

“Com os efeitos da pandemia e não obstante o facto de em Portugal as moratórias bancárias terem assumido um papel determinante, o setor publico passou para 135%, tendo-se agravado o diferencial face à média da UE. Felizmente os valores de 2021 demonstram já uma evolução favorável”, referiu o CEO.

Miguel Maya deixou dois apelos: “É imperativo para o crescimento económico sustentado reduzir com intensidade a divida publica em % do PIB”; e “Com o atual nível de dívida pública estamos muito expostos a eventos externos (muito vulneráveis e dependentes de terceiros)”.

Como o valor do rácio também se corrige por via do crescimento do PIB, o CEO do BCP disse que são precisos incentivos que “fomentem a inovação; que estimulem a capacidade das empresas portuguesas serem competitivas no mercado global e digital e falo de menores custos de contexto com destaque para fiscalidade, mercado de trabalho, celeridade processual, entre outros; e incentivos que promovam a atração, o desenvolvimento e a retenção de talento nas áreas do saber que são vitais para a afirmação das empresas em mercados mais globais e digitais”.

O segundo desafio apresentado por Miguel Maya refere-se aos stress testes climáticos do BCE que vão criar uma pressão sobre os bancos para apoiar a descarbonização acelerada da economia europeia.

O BCE efetuou um teste de stress climático que envolveu mais de 4 mil empresas e 1.600 bancos da zona euro.

“Portugal aparece, ao nível dos riscos físicos como outlyers, pela negativa, a par da Espanha e só superados pela Grécia”, referiu.

Nos riscos de transição “aparecemos mal, mas não muito desalinhados”, disse acrescendo que “esta perceção terá implicações para os Bancos mas também e sobretudo para as empresas, pois as exigências vão materializar-se, direta ou indiretamente, caso nada seja feito, na dificuldade de acesso ao crédito e no agravamento dos custos de financiamento”.

“Há aspetos que temos de corrigir”, disse ainda o CEO, destacando que há quase mil milhões de pessoas a viver com menos de dois euros por dia; mil milhões de pessoas sem acesso a eletricidade; 10% da população mundial ainda subnutrida”, disse referindo-se ao S dos requisitos ESG (Environmental, Social, and Governance).

“O desafio ambiental não tem qualquer hipótese de ser resolvido sem cooperação à escala global. Se Portugal for absolutamente exemplar na atuação climática, e um, apenas um dos 5 principais emissores não fizer o seu caminho para a transição energética, o resultado será que o nosso esforço valerá “0”, e será totalmente inútil. Os 5 principais emissores de CO2 representam mais de metade das emissões globais de gases com efeitos de estufa”, disse.

Miguel Maya defendeu a criação de uma base de dados nacional, oficial, “que expresse com detalhe, malha fina, a intensidade do risco físico de cada empresa em concreto”.

“É urgente e deveria ser considerada pelo Governo no âmbito da alocação dos Fundos do PRR”, disse.

A “utilização eficiente, transformativa, dos 61 mil milhões de euros dos Fundos Europeus é absolutamente crítica, sendo necessária uma visão abrangente dos investimentos que podem efetivamente melhorar a competitividade das empresas e endereçar os desafios das alterações climáticas”, defendeu.

“O BCP está fortemente comprometido a apoiar as empresas na identificação das oportunidades e no acesso aos Fundos Europeus, tendo complementado a sua oferta com um conjunto abrangente de linhas protocoladas com o BEI e FEI”, frisou.

O impacto do conflito no Leste é o terceiro desafio apontado. Miguel Maya lembrou o impacto na inflação, alterações na política monetária, agravamento dos custos de financiamento, perturbações nas cadeias logísticas, aumento do risco país resultante do impacto das eventuais medidas de apoio nas contas públicas.

“O quarto risco que pretendo destacar tem a ver com a cibersegurança”, disse Miguel Maya. “É um tema cada vez mais relevante numa economia global e digital”, frisou.

Trata-se de um risco que tem implicações a vários níveis para as empresas e o CEO do BCP destacou dois. “O primeiro nível são as consequências diretas dos ataques, os custos decorrentes das perturbações nos modelos e processos de negócio”, disse.

“Um segundo nível, cada vez mais importante, é na avaliação que os Bancos e os Fornecedores fazem do risco de crédito concedido a cada empresa em concreto, bem como o potencial incremento nos custos de financiamento resultantes da intensidade desse risco”, realçou acrescentando que poderia acrescentar “o risco de exclusão de redes de colaboração, produção e distribuição”.

As empresas podem ser inovadoras, dominar mercados e processos de produção, “mas se forem muito vulneráveis em termos de cibersegurança, o fator determinante na análise do risco de crédito vai ser essa vulnerabilidade”, alertou.

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