O destino do émigré na colisão russo-ucraniana: dois cenários possíveis por intermédio de Nabokov

O destino do émigré na colisão russo-ucraniana: dois cenários possíveis por intermédio de Nabokov À ação de emigrar por vontade própria está subjacente a visão de que a mudança de país pode melhorar as condições de vida a nível social, económico e psicológico. Para o émigré, na grande maioria dos casos, esse processo não traz […]

O destino do émigré na colisão russo-ucraniana: dois cenários possíveis por intermédio de Nabokov

À ação de emigrar por vontade própria está subjacente a visão de que a mudança de país pode melhorar as condições de vida a nível social, económico e psicológico. Para o émigré, na grande maioria dos casos, esse processo não traz conforto nem cura; pelo contrário, transforma-se numa maratona ao longo da vida, que precisa de flexibilidade na adaptação a nova realidade e de um exercitar constante da capacidade de ultrapassar os obstáculos quotidianos na integração no outro país.

Uma vez mais, a História mundial é marcada pelo surgimento de émigrés, provenientes de países com ricas heranças culturais. É uma realidade social global que enfrentamos na atualidade. Esta não é virtual, um híbrido de ficção e realidade, um reality show, mas a realidade quotidiana, sufocada, de pessoas inteligentes e espiritualmente ricas, contrariamente à realidade de pessoas desalmadas. É diferente da realidade paralela dos outros, de quem fomenta a realidade falsa, infetada e mutante. De facto, do mesmo modo que não existe um elixir da eterna juventude, também não foi encontrada uma forma de eliminar a raiz da maldade no ADN do indivíduo que a desenvolve numa calamidade global. Assim, a única solução é o afastamento do epicentro de eventos malignos, escapar, tornar-se émigré… A partir de agora, será possível aprender viver com este compromisso?

Os notáveis cenários dos destinos de émigrés foram assinados por um jovem de dezoito anos que passou por experiências autênticas e que continua a inspirar muitas pessoas quando tomam decisões sobre o seu destino. Este jovem nasceu numa família rica e nobre e viveu uma infância e juventude em condições totalmente harmoniosas; falava várias línguas fluentemente, apreciava e amava a cultura e a literatura. Herdou um significativo capital financeiro e foi preparado para ter uma carreira brilhante. No entanto, subitamente, sem aviso prévio, Nabokov tornou-se um dos milhões de émigrés lutando pela sobrevivência. Em 1937, o autor escreveu uma carta à mulher em que recordou as inúmeras tentativas de resistir em países estrangeiros, comparando-se a um nadador que, finalmente, consegue encontrar uma pedra, mas uma vez mais a perde e deve começar tudo de novo – a remar novamente para sair do fundo e nadar outra vez. Nabokov não reclamou nem desistiu; o escritor optou por insistir e utilizar as suas capacidades para apoiar o próximo. Nas suas obras, Nabokov representou dois cenários escolhidos por personagens émigrés.

As principais personagens dos romances A defesa de Lujin e Maсhenka são émigrés que vivem diferentes realidades nas suas mentes e almas e fazem escolhas sob diferentes perspetivas. Apesar da profunda tristeza interior e das desfavoráveis circunstâncias externas, Ganin é um exemplo de identidade forte e ininterrupta, capaz de avaliar a situação de forma moderada e tomar a decisão certa num momento crucial. Em comparação com Ganin, que sabe encontrar inspiração nas suas memórias do país de origem, Lujin está completamente perdido: o famoso jogador de xadrez não é capaz de mudar a forma de pensar e perceber que é uma pessoa feliz, porque tem a capacidade de extrair a energia vital dos seus dons e do ambiente benéfico. Ganin decide continuar, superar as circunstâncias inúmeras vezes, sair da sua zona de conforto e avançar em direção ao desconhecido. Pelo contrário, Lujin afoga-se nos seus preconceitos e reflexões e prefere deixar a vida.

A situação real e atual que enfrentam os émigrés na sequência da colisão russo-ucraniana suscita questões delicadas e complexas relacionadas com a identidade e a sua possível evolução ou transformação ao longo do tempo nos países de acolhimento, devido a fatores internos e externos. O sofrimento pela pátria pode parecer, quiçá, sentimental ou romântico e pode ser subestimado pelas novas gerações; porém, quantas vezes, estando num outro país, as pessoas se apaixonam novamente pelas suas recordações do passado que tinham tido nos lugares de origem. Porém, escolhas difíceis, mas corretas, trazem sementes de esperança e a força de realização de identidades únicas.

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