O Homem nunca foi à Lua

As pseudo-notícias que apelam ao lado emocional e às preferências sociológicas dos eleitores ganham maior atenção do que a informação factual, verificada e publicada pelos meios de comunicação tradicionais.

A Wikipedia define fake news como “a distribuição deliberada de desinformação ou boatos (…) com a intenção de enganar e, com isso, danificar uma agência, entidade ou pessoa, e/ou obter ganhos financeiros ou políticos”.

Na era do Pós-Verdade, em que assessores de imprensa defendem factos refutáveis por mera observação, conselheiros políticos se referem a “factos alternativos” e líderes de campanhas se demarcam das suas promessas horas após ganharem uma eleição, pseudo-notícias apelando ao lado emocional e preferências sociológicas dos eleitores ganham maior atenção e, por conseguinte, geram mais lucro a quem as publica do que informação factual, verificada e publicada pelos meios de comunicação tradicionais, ao conseguir mais clicks e visualizações.

Isto poderá surgir do facto de, hoje em dia, o consumo de notícias se apresentar mais como uma forma de lazer do que um exercício de responsabilidade democrática, dada a percepção de que cada voto, individualmente, tem um valor residual no resultado da eleição, aliada à quantidade de meios de comunicação e da sua distribuição mais ou menos evidente ao longo do espectro político.

No entanto, um fenómeno conexo a este apareceu: a completa descredibilização e suspeita constante dos chamados “media tradicionais”. Basta observar o ataque à CNN, a quem o Presidente dos EUA se recusa a responder, apelidando-o de notícias falsas, no que me parece constituir um claro ataque à liberdade de imprensa.

E, se por um lado não pretendo de todo retratar como infalíveis ou inquestionáveis as peças e posições desta cadeia noticiosa, por outro é insultuoso classificar uma das mais antigas estações televisivas americanas com o mesmo rótulo que sites anónimos com uma agenda de propaganda bem definida. Mas a verdade é que o rótulo pegou e, talvez numa atitude de mímica acefálica que tanto nos caracteriza, já chegou a Portugal.

A boa informação é precisa (nos dois significados da palavra); mas saber comunicá-la também. Vejamos, por exemplo, a investigação do Correio da Manhã sobre o prédio de Ricardo Robles: ao comunicar mais um dado relevante e, à altura, novo relativamente ao valor patrimonial e consequente IMI a pagar pelo imóvel de Alfama, o matutino escolheu como manchete “Fisco faz saldo a casa de Ricardo Robles”.

Ora, se o core da notícia não me oferece razões para a questionar, a expressão “faz saldo” sugere uma premeditação, insinua um papel activo do fisco numa falha para a qual não existem indícios de fraude. E, se eu, enquanto indivíduo, posso, em conversa de amigos num qualquer bar, fazer tal insinuação (a clássica conversa do “só mudam as moscas”), um jornal com responsabilidade social e dever de informar (esqueçamos por momentos de que jornal falo) não o pode fazer.

Porque estas são as situações que descredibilizam a comunicação tradicional – não mentiras óbvias, como muitos dos leitores da National Review pensarão, pois, já dizia o povo, “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo” – e levam à adesão a correntes de “factos alternativos” e manchetes sensacionalistas de como o Homem nunca foi à Lua. Curioso que, sem me perguntassem, diria que a massa cinzenta de muita gente lá foi – e se perdeu na viagem.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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