Parlamento britânico chumba acordo para o Brexit

Com o “não” dos deputados da Câmara dos Comuns, a saída do Reino Unido da União Europeia arrisca-se a não avançar, segundo Theresa May.

O Parlamento britânico chumbou esta terça-feira à tarde o acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia (‘Brexit’), depois de cinco dias de debate, com 432 votos contra e 202 a favor. Os deputados da Câmara dos Comuns negaram o documento, deixando a primeira-ministra Theresa May numa posição delicada e pondo em causa o divórcio entre Londres e Bruxelas.

Por decisão da Câmara dos Comuns de há poucos dias, o governo tem agora três dias (até 21 de janeiro) para apresentar um calendário com os próximos passos do Brexit, supostamente para encontrar uma alternativa ao acordo que acaba de ser recusado. Resta saber se a Comissão Europeia e o Conselho Europeu aceitam qualquer tipo de revisão. Nesta particular, as notícias são desencontradas e as certezas são muito poucas.

Os jornais europeus estão cheios de declarações atribuídas a altos responsáveis da estrutura política europeia segundo os quais Jean-Claude Juncker (Comissão) e Donald Tusk (Conselho) estão abertos a pequenos ‘arranjos’ de última hora que possam de algum modo facilitar a aceitação do documento por parte dos deputados britânicos. Mas, oficialmente, as negociações estão fechadas e são para continuar assim.

Alguns analistas iam mais além: afirmavam que, se a derrota da primeira-ministra Theresa May fosse moderada (falavam de uma derrota por uma margem inferior a 100 votos), as estruturas europeias poderiam ceder à tentação de agradar aos deputados britânicos – principalmente aos conservadores que votaram, ao lado dos trabalhistas – na tentativa de salvarem o acordo.

Seja como for, tudo indica que os próximos três dias, no fim dos quais o executivo de May tem de entregar à Câmara dos Comuns um plano de seguimento, vão ser de muitos contactos entre o governo britânico e as instituições comunitárias. Mas a valência do que quer que seja que May possa trazer de novo pode embarrar na irredutibilidade dos trabalhistas e dos unionistas irlandeses, pelo menos. Se isso acontecer, May arrisca nova derrota.

De qualquer modo, os analistas convergem para a evidência de que May não poderá nunca conseguir aquilo que querem os deputados que votaram contra o acordo: uma decisão aceitável sobre a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Simplesmente porque não a há: a União Europeia e qualquer força política de poder no Reino Unido não têm qualquer ideia sobre como resolver a situação. É por isso que todos querem estender as negociações: é porque não há o mais pequeno vislumbre de solução.

Num artigo de opinião publicado este fim de semana no “Sunday Express“, Theresa May avisou que “se o parlamento não se unir e apoiar este acordo do interesse nacional”, o país corria “o risco de sair sem qualquer acordo, com toda a incerteza relativa a empregos e à segurança que isso trará”. “É a maior e mais importante decisão que qualquer deputado da nossa geração será convidado a tomar”, disse.

O documento negociado pelo governo britânico define os termos da saída do Reino Unido da comunidade única, incluindo uma compensação financeira de 39 mil milhões de libras (cerca de 44 mil milhões de euros), os direitos dos cidadãos e um mecanismo para manter a fronteira da Irlanda do Norte com a República da Irlanda aberta.

O Brexit está marcado para o próximo dia 29 de março.

atualizada

Relacionadas

Corbyn avança com moção de censura a Theresa May

Os trabalhistas prometeram e cumpriram: Theresa May vai enfrentar uma moção de censura já amanhã.

Primeira-ministra britânica promete negociar com partidos para desbloquear acordo de saída

A primeira-ministra britânica prometeu continuar a negociar com os outros partidos soluções para conseguir que o parlamento aprove o acordo para o ‘Brexit’ se sobreviver a uma moção de censura do partido Trabalhista.

Brexit: Unionistas e eurocéticos contra moção de censura do ‘Labour’ ao governo

“Vamos votar contra a moção de censura do partido Trabalhista. Nós queremos ver o governo do partido Conservador continuar a avançar com o ‘Brexit’. Nunca quisemos uma mudança de governo, queremos uma mudança de política”, disse o líder parlamentar do DUP, Sammy Wilson, à BBC.
Recomendadas

Pfizer regista um lucro anual em 2022 de 31,4 mil milhões de dólares

A farmacêutica registou aumentos nos lucros e nas receitas, mas espera que em 2023 haja uma quebra da faturação, devido à diminuição nas vendas de vacinas e medicamentos contra a Covid-19.

Reabertura “caótica” da China “difícil de digerir” para residentes em Shenzhen

O súbito fim da política de ‘zero casos’, sem anúncio antecipado ou preparação do sistema de saúde, deixou famílias a lutar pela sobrevivência dos membros mais idosos, à medida que uma vaga de infeções inundou os hospitais e crematórios do país.

Tribunal de Contas “atento” ao processo da Jornada Mundial da Juventude

O presidente do TdC precisou ser necessário deixar que o processo corra, acentuando que o Tribunal de Contas (TdC) “está atento [à JMJ] como está atento a outros processos que estão a correr” na sociedade.
Comentários