Propósito e mobilidade do futuro: uma nova urgência

O conceito de propósito é antigo, mas ganhou tração e um enorme sentido de urgência nos últimos 12-18 meses.

O conceito de propósito é antigo, mas ganhou tração e um enorme sentido de urgência nos últimos 12-18 meses.

Conceito de propósito
O propósito corporativo reflete o porquê de uma organização existir. Articula o objetivo da organização capturar espaços de oportunidade não ocupados, ou o problema que tenta resolver – necessidade não satisfeita de (potenciais) clientes ou outro. Deste modo, permite a articulação do direito (e da ambição) de um operador servir clientes, atrair investidores/financiamento ou fazer parte de uma comunidade.

 

Porquê a urgência atual
No contexto atual de transição de um capitalismo de acionistas (shareholders) para um em que o operador interage com os múltiplos ecossistemas da mobilidade (stakeholders), com fronteiras mais ténues entre os intervenientes nesta espaço alargado da mobilidade, o sector dos transportes ainda sofre de um perception gap entre o valor que contribui para a atividade económica (incluindo o nível de serviço prestado), e o custo de financiamento da operação, incluindo compensação por obrigação de serviço público.

Ao longo dos últimos 12-18 meses, a temática de responsabilidade social tem migrado para o centro da agenda corporativa, devido a três principais catalisadores:
n Covid-19 (e.g., bem-estar dos motoristas, distanciamento social, maior higienização)
n Explosão da agenda de diversidade e inclusão
n Interceção de ocorrências ambientais, sociais e de governança (e.g., acordos de Paris, compromissos net zero, agenda verde de descarbonização)
Globalmente, a maioria dos ecossistemas de mobilidade tem esboçado tímidas respostas a estes múltiplos catalisadores, conduzindo frequentemente a desafios internos nas organizações em termos de (a) falta de alinhamento e amplo espetro de opiniões internas, (b) inconsistência de dados (no contexto da falta de estandardização de dados do sector), e (c) preocupação com ESG rating.

 

Papel do propósito
Neste contexto, o propósito corporativo é crescentemente uma crítica ferramenta de tomada de decisão que visa essencialmente a priorização de apostas estratégicas, permitindo às organizações serem mais proativas na identificação de espaços de oportunidade e construírem a sua própria agenda de crescimento.
Esta abordagem de priorização e alinhamento facilita decisões de estratégia, de investimento e de gestão da operação num contexto de significativa incerteza de curto prazo no panorama pandémico atual e pós-pandémico na natureza de longo prazo do sector.

Propósito em prática: cinco considerações
Podemos articular cinco considerações principais para a ativação do propósito corporativo nos operadores e atores de mobilidade no contexto atual:

n Revisitar: a relevância do serviço prestado, robustez (shareholder versus stakeholder) e o propósito ser uma efetiva ferramenta de suporte à decisão
n Alinhar: a objetivos, âmbito de atuação e votos de decisão entre membros da administração, sede e subsidiárias (quando aplicável), e membros conselho de administração versus outros órgãos internos
n Definir prioridades e monitorizar: ponto(s) de partida, proteção de valor versus criação de valor para stakeholders
n Considerar o modelo operativo: modelos de propriedade, modelos de remuneração, pessoas, processos (específicos de transportes), tecnologia, nova regulação de transportes
n Envolver os vários stakeholders: trabalhadores, clientes, fornecedores, parceiros, financiadores/investidores, reguladores

É desafiante gerir um negócio com o objetivo de mover pessoas quando a maioria das pessoas não se pode movimentar, conjuntamente com uma nova importância do comercio eletrónico. Adicionalmente, a esfera da responsabilidade corporativa social tem vindo a ganhar uma crescente importância. Neste contexto, o propósito corporativo permite às organizações priorizarem estratégias e alinharem perspetivas internas e externas distintas, tendo um crescente papel na (re)ativação estratégica e no evitar que a “cultura coma a estratégia ao pequeno-almoço”.

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