Putin. De espião a invasor, quem é o homem forte do Kremlin?

O presidente russo tem estado no centro das atenções depois de invadir a Ucrânia, que se seguiu à Geórgia e à Crimeia. O atleta com uma infância difícil que se tornou espião do KGB viu a sua lealdade soviética a ser recompensada com mais de duas décadas no poder. É, desde o início, uma figura controversa – tanto na Rússia como no resto do mundo.

Alexei Druzhinin/Reuters

Infância pobre e orgulho soviético

Vladimir Vladimirovich Putin, agora com 70 anos, nasceu a  7 de outubro de 1952 em Leninegrado, atual São Petersburgo. Não cresceu numa família rica partilhou uma apartamento com três outras famílias. A sua infância foi difícil e diz-se que costumava entrar em lutas quando era mais novo com rapazes maiores e mais fortes que ele, o que o levou a praticar judo e a ganhar o cinturão negro.

De acordo com o governo russo, mesmo antes de terminar o secundário, ele queria trabalhar na inteligência e, aos 23 anos, juntou-se ao serviços secretos soviéticos (KGB) após se ter formado em Direito na Universidade Estatal de Leningrado. Demitiu-se do KGB em 1991, após o colapso da URSS.

Começou a trabalhar no gabinete do presidente da Câmara de São Petersburgo, onde ficou até 1996, até se mudar para Moscovo. Depois de passar pelo Departamento Presidencial de Gestão de Propriedades, o presidente Boris Ieltsin nomeia-o chefe do protocolo, ficando mais tarde responsável pelas regiões antes de ser nomeado primeiro-ministro em agosto de 1999.

Tornou-se presidente interino em dezembro e foi eleito em março de 2000. A lealdade aos seus superiores, bem como o desejo de manter o status quo, levou-o a ser a escolha de partes da elite política e empresarial, bem como do círculo interno do Kremlin. Permanece no poder desde então, mais de duas décadas depois.

“Para ele, como para muitos dos que trabalharam na KGB, o Estado vem sempre em primeiro lugar. Tudo o resto – instituições democráticas, liberdades pessoais, direitos humanos – vem depois disso”, afirmou Yevgenia Albats, autora de “KGB: State Within a State”, à “PBS America”.

Seguidor da ordem, da tradição e da economia de mercado

Apresenta-se como um líder forte que ajudou a Rússia a sair dos problemas económicos, sociais e políticos da década de 1990. Gosta de passar uma imagem dura e de ter a câmaras por perto enquanto faz demonstrações de força, é frequentemente fotografado a cavalgar, levantar pesos e fazer judo.

Uma questão que se mostrou controversa é o tratamento de Putin às pessoas LGBT+. O seu governo aprovou uma lei em 2013 que proíbe a promoção da homossexualidade para menores de 18 anos e, em 2021, uma emenda na Constituição proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Muitos daqueles que se opõem a Putin não concordam com a quantidade de poder e controlo que tem sobre o país – particularmente sobre os media, que são alvo de censura. Aqueles que não concordam com Putin não têm voz. Milhares foram presos por falarem contra Putin ou forçados a deixar o país.

As sondagens divulgadas pelos meios de comunicação russos sugerem que ele ainda é popular. Até 2008, depois dos dois primeiros mandatos como presidente, o padrão de vida de muitos russos melhorou e muitos acham que Putin estabeleceu um verdadeiro sentimento de orgulho nacional.

As guerras como modo de consolidar poder

A segunda guerra da Chechénia, que ainda decorria quando chegou ao poder, criou a figura política de Putin. Foi a ” questão, acima de todas as outras, que lhe permitiu demonstrar que era duro e que iria reprimir terroristas e criminosos”, garantiu Strobe Talbott, ex-vice-secretário de Estado dos EUA e especialista em Política Internacional, à “PBS America”.

Entretanto, outras guerras se seguiram, muito para consolidar o seu poder, mas também o sonho soviético – Putin já considerou o fim da URSS “a maior catástrofe do século XX” -, procurando manter as esferas de influência. A Rússia invadiu a Geórgia em 2008, entrando pela região semiautónoma da Ossétia do Sul, sob a justificação de que o uso da força era necessário para proteger os osseitianos do “genocídio” georgiano. Nunca houve provas a seu favor. Em vez disso, há provas de que a guerra foi “premeditada”.

A história parece estar a repetir-se na Ucrânia, invadida a 24 de fevereiro, depois de ter perdido a Crimeia para os russos em 2014. Agora, para além das alegações de genocídio aos habitantes de Donbass, soma-se a ideia de que a Ucrânia é controlada por “neonazis”.

Vida privada

Putin é uma pessoa muito discreta em relação à sua vida pessoal, tendo-se esforçado ao longo dos anos para proteger os seus familiares dos holofotes. Em 1983, casou-se com Lyudmila Shkrebneva, ex-comissária de bordo, com quem teve duas filhas, Maria (agora com 36 anos) e Katerina (35), e divorciou-se em 2014. Alegadamente, tem um neto da parte de Maria.

Apesar de nunca ter reconhecido publicamente as filhas, os media têm vindo a especular e a juntar as peças. Crê-se que tenha tido uma outra filha em 2015, com a namorada, a ex-ginasta Alina Kabaeva. Contudo, nem a criança nem o relacionamento foram confirmados.

Recomendadas

Reino Unido apela no G7 a apoio “pelo tempo que for necessário” à Ucrânia

O apelo, refere a agência de notícias Efe, que cita um comunicado do Governo de Londres, vai ser feito no arranque da cimeira do G7, que começa hoje e vai durar três dias, no sul da Alemanha.

Reino Unido, EUA, Canadá e Japão proíbem importações de ouro russo

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou, num comunicado, que “estas medidas atingirão diretamente os oligarcas russos e irão até ao coração da máquina de guerra de Putin”.

Zelensky vai pedir ao G7 mais apoio militar face a “chuva de mísseis” russos

O presidente ucraniano afirma que o país “precisa mais do que qualquer outro lugar do mundo” dos “sistemas modernos” de defesa militar que fazem parte dos arsenais de vários países ocidentais.
Comentários