Sancionado

Só podem ser os próprios russos a fazer o ‘Putout’. Duas condições são necessárias: a Europa tem que deixar de depender da energia russa e tem de manter a unidade no isolamento da Rússia, sem fechar os canais diplomáticos.

O mundo ficou diferente. A Polymetal International Plc dá um rendimento, baseado no dividendo, de 30%, porém o título já perdeu na City ¾ do valor e pode ser excluído do FTSE 100. A Evraz Plc perdeu mais de metade do que valia, e Abramovich tem 30% do seu capital – não deve estar contente. Dia sete a Schroeders avisou os investidores nos seus fundos que “we are currently valuing Russian equities positions at zero.”

As sanções estão a morder. São como as bruxas em Espanha: Putin não acreditou nelas, mas afinal existem! O problema é se e quando vão produzir o efeito desejado. Parte foi orientada para atingir os protagonistas, Putin em primeiro lugar, congelando os seus ativos. Ora, ninguém sabe onde estão as fortunas do bando dos quatro: Putin, Lucashenko, Kim Jong-un e Bashar al-Assad. E o que faz parar gente que está pronta a prender, bombardear ou gasear o próprio povo? Mas esta sanção foi desenhada para ser simbólica, para pôr os holofotes em cima de quem merece.

Internamente, Putin tem usado a lei de Goebbels: uma mentira repetida muitas vezes transforma-se na verdade. Outras sanções têm tido outra eficácia: a Rússia tornou-se um pária dos mercados financeiros, os seus bancos foram de facto proibidos de operar, e os ativos do seu banco central foram congelados, o que impediu a defesa do rublo, cuja taxa de câmbio está em queda livre: em 2020 um dólar comprava 80 rublos; no dia em que escrevo, quase 130. Na Rússia as compras de bitcoin aceleram.

Pode a Rússia resistir a isto? Com o petróleo a 100 dólares, sim – dá um excedente de 20 mil milhões de dólares por mês nas transações correntes, sem contar as quebras de importações. Mas para isso tem que vender. Neste dia, a Shell anunciou que deixa de comprar à Rússia, e os EUA fizeram o mesmo.

Uma coisa boa Putin conseguiu: nos últimos 50 anos, o mundo ocidental nunca esteve tão unido. Lembra a guerra do Golfo (primeira) em que o embaixador americano se sentia incomodado face aos colegas por ser o único com grafiti pró-americano nas paredes da embaixada. Porém, uma abordagem realista leva a conclusões desagradáveis.

A Ucrânia vai cair, apesar do seu heroísmo nada pode a inteligência contra a força bruta. E o Ocidente vai ter que se preparar para um longo período de desgaste. Podemos ter pela frente dez anos de sanções, mas a longo prazo Putin não pode ganhar. Putin vai ter que sair, até para não dar um sinal a terceiros, tentados a fazer o mesmo. Os EUA estão preocupados com o que pode fazer a fera encurralada, mas é pior a fera à solta. E só podem ser os próprios russos a fazer o Putout.

Duas condições são necessárias: a Europa tem que deixar de depender da energia russa; e tem que se manter a unidade no isolamento da Rússia, sem fechar os canais diplomáticos. No fim de contas, o mundo civilizado não tem um problema com o povo russo, apenas com Putin e seus amigos.

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