Sindicato de tripulantes de voo recorda a presidente da Ryanair que se arrisca a greves no verão

Antes de iniciar a conferência de imprensa que o presidente da Ryanair agendou esta quarta-feira, em Lisboa, o Sindicato do Pessoal de Voo da Aviação Civil informou o Jornal Económico que a empresa não respeita os direitos dos trabalhadores – nem têm acesso a água para beberem durante os voos – e por isso a Ryanair arrisca-se a ser confrontada com greves no próximo verão.

Cristina Bernardo

Num momento em que o presidente executivo da Ryanair, Michael O’Leary, está debaixo do fogo cruzado de sete sindicatos de cinco países, representando os “descontentes” tripulantes de cabine dos aviões operados pela companhia low cost irlandesa – que produziram um comunicado em Bruxelas, a 19 de maio, intitulado “Ryanair Must Change” enviado ao Jornal Económico denunciando a “incapacidade de alcançarem um diálogo social durante os últimos quatro anos, “respeitador dos direitos dos trabalhadores”, onde figura a queixa de nem sequer terem acesso a água para beberem durante os voos – organiza esta manhã, em Lisboa, às 9h45, no Hotel Radisson uma conferência de imprensa em que se prevê um regresso aos seus ataques à estratégia do Governo português por causa do Plano de Reestruturação da TAP, que O’Leary acusa de concorrência desleal suportada por dinheiros públicos e também pela já antiga reivindicação de exigir que a TAP liberte mais slots (direitos de chegada e partida dentro de faixas horárias específicas no aeroporto internacional de Lisboa, Humberto Delgado.

Michael O’Leary mantém a sua tradicional combatividade empresarial – viu-se recentemente os termos duros com que se dirigiu à norte-americana Boeing por causa dos atrasos na entrega dos cerca de 400 aviões que tinha encomendado –, mas desta feita os sindicatos fazem-lhe um reparo muito sério: tem de alterar o estilo de gestão, admitindo que se nada for feito pela gestão da Ryanair, a companhia low cost arrisca-se a ser confrontada, em breve, com greves.

Num comunicado enviado na manhã desta quarta-feira ao Jornal Económico, antes de a conferência de imprensa de Michael O’Leary começar, o Sindicato do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) recorda que na última reunião efetuada em Bruxelas, onde estiveram presentes, além do SNPVAC, “sindicatos de Espanha, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Roménia, Polónia e Bélgica”, foi notado que “desde 2018 que os sindicatos têm despendido muitos esforços para alcançar um diálogo social justo e transparente, de forma a apoiar devidamente os direitos dos seus associados”, mas “quatro anos após a primeira ação coordenada de grande escala a nível europeu, podemos verificar que apenas algumas das questões levantadas foram melhoradas”.

Entre “os pontos onde focámos energias e sinergias”, o SNPVAC denuncia que a “Ryanair insiste que a legislação europeia e nacional pode ser negociada”, que “os direitos básicos de um trabalhador devem ser aplicados e não serão sujeitos a negociação” e que “os Tripulantes continuam a trabalhar sem acesso a água a bordo”.

“Não existe apoio local de Recursos Humanos, de modo a proporcionar proteção adequada em matéria de Saúde e Segurança no local de trabalho”, adiantam, denunciando igualmente que há “falta de transparência nos sistemas de transferências e promoções de carreira, sendo estas frequentemente utilizadas como forma de intimidação aos trabalhadores, que se sentem assim obrigados a aceitar piores condições de trabalho”.

Diz ainda o SNPVAC que “apesar de todas as decisões do tribunal contra a Ryanair em várias jurisdições, a empresa opta por ignorar as consequências das decisões, com a cumplicidade das autoridades locais e europeias”, e que “as formas atípicas de emprego têm um efeito negativo na comunidade das tripulações da Ryanair e as autoridades parecem incapazes de agir consistentemente em seu benefício”.

Finalmente, o sindicato refere que “ao mesmo tempo, os governos mostram-se demasiado cautelosos em desafiar o modelo da Ryanair, deixando os trabalhadores indefesos contra o dumping social e também os passageiros expostos às perturbações daí decorrentes”, adiantando que “a Ryanair afirma reconhecer os sindicatos, mas demonstrou a sua relutância em reconhecer os direitos dos trabalhadores a organizarem-se em sindicatos da sua escolha, empenhando-se em negociações coletivas”.

“É necessário que a Ryanair tome consciência do valor dos tripulantes e do valor acrescentado que um trabalhador motivado dá à companhia”, “para além de outros problemas do dia a dia, alterar a mentalidade e a forma de funcionamento da companhia estará na nossa capacidade de mobilização”, refere o sindicato português.

“Tendo em consideração este ponto específico” – e porque esta é uma preocupação transversal de toda a rede, diz o sindicato -, “foi enviada a carta em anexo assinada pela maioria dos sindicatos da rede Ryanair ao Conselho de Administração”, adianta.

Por tudo isto, “os sindicatos representativos dos Tripulantes de Cabine da Ryanair não hesitarão em lançar uma ação a nível europeu este verão, caso a companhia não nos dê uma resposta significativa”, refere, esclarecendo ainda que “queremos que 2022 seja o ano da recuperação, mas também o ano de um verdadeiro diálogo social. A gestão por medo na Ryanair deve parar. A comunidade dos Tripulantes da Ryanair merece ser respeitada e recusa-se a ser intimidada”, conclui o SNPVAC.

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