Solução para crise do talento não está em criar mais cursos

Portugal tem problemas estruturais que tendem a agravar-se com a mudança. Digitalização e automação estão a lançar grandes desafios às empresas e o das pessoas é o maior.

Há uma dúzia de anos que o ISEG Executive Education tem uma pós-graduação em Gestão da Sustentabilidade. Só agora é que a procura é mesmo enorme… nem sempre as empresas antecipam da mesma forma que a academia a relevância de certos temas. “Tudo se vai ajustando”, diz Clara Raposo, presidente do ISEG, ao Jornal Económico, ao puxar este exemplo para cima da mesa.

De facto, o mercado de trabalho funciona como uma balança mal calibrada, com os dois pratos — oferta e procura — por vezes, desequilibrados. É o que se passa em Portugal, segundo os empresários, que se queixam sistematicamente que não conseguem contratar as pessoas de que necessitam.

“Nem sempre o ‘matching’ é perfeito e isso acontece por diferentes motivos, cumulativamente”, afirma Clara Raposo, explicando: “Há períodos de maior alteração tecnológica e necessidade de mudança por parte das empresas, que implica recrutar novos recursos humanos. Nem sempre as universidades colocam no mercado os recursos em quantidade suficiente em todas as áreas quando há uma alteração profunda”.

Por outro lado — acrescenta — nem sempre as empresas apostam o suficiente na requalificação dos seus atuais profissionais para que possam vir a desempenhar funções diferentes. Esta forma de pensar tem de estar mais presente: as empresas vão ter de investir na formação das suas pessoas para que estas consigam dar resposta às novas exigências do mercado de trabalho – cada vez mais se sente a necessidade de melhoria contínua dos recursos humanos das empresa”.

De acordo com Clara Raposo, em alguma medida, as universidades têm trazido formações inovadoras para dar resposta a estas novas necessidades. Novos mestrados, pós-graduações, até doutoramentos e cursos mais breves, por vezes desenhados à medida das empresas. Não é suficiente para calibrar a balança. “As empresas — afirma —também têm de investir, o que nem sempre é simples em empresas de pequena dimensão. Ao benefício que a empresa tem no aumento da produtividade quando se investe na qualificação dos seus trabalhadores, junta-se a redução de risco de perda desses trabalhadores que, cada vez mais, procuram ser exigentes quanto à qualidade da sua vida profissional. Nos mais novos, então, este efeito está muito bem documentado”.

Preto no branco, Álvaro Garrido, diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diz ao Jornal Económico que o problema da falta de recursos humanos especializados em Portugal é uma evidência recorrente. E não é exclusivo do país. “Ainda que, em geral — explica — o mercado valorize as formações existentes, o testemunho dos empresários reflete problemas de articulação entre os padrões da oferta de diplomados pelas instituições de ensino superior e a procura das empresas em determinados sectores de atividade económica”.

Acrescenta, no entanto, que alguns estudos “tendem a demonstrar que não se trata apenas de falta de determinados diplomas ou especializações académicas, mas da falta de competências específicas que as empresas procuram para fazer face a necessidades concretas na produção de bens e serviços”.

Por outras palavras, diz Álvaro Garrido, “essas tensões atravessam o mercado de trabalho, mas a raiz do problema também está nas debilidades estruturais da economia portuguesa, não apenas na reduzida capacidade das instituições de ensino superior para se ajustarem à realidade, cujos progressos são inequívocos”.

O cenário nas TI
Sandra Fazenda Almeida vive o problema dentro de casa. As tecnologias de informação estão na linha da frente das necessidades de recursos humanos qualificados. Ao Jornal Económico, a diretora executiva da APDC – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, traça o cenário: “A digitalização da economia e da sociedade é hoje uma realidade incontornável, acelerada exponencialmente a partir de 2020 pela pandemia. Em paralelo, está a crescer o número de empresas e startups de base tecnológica, que vêm dar resposta à necessidade do mercado, em todas as áreas de atividade, de ter acesso a serviços e soluções assentes em tecnologia. Há ainda que ter em conta que o nosso país é, cada vez mais, um hub preferencial para a instalação de centros de competências de grupos internacionais vindos de todos os cantos do mundo”.

Esta combinação de fatores que Sandra Fazenda Almeida refere já estava a gerar “uma acentuada” falta de recursos humanos especializados em TIC antes da Covid-19. Que se agravou com a aceleração da transformação para o digital a que se soma um outro fator. “Portugal é reconhecido pela qualidade dos seus recursos humanos, o que faz com que o talento nacional seja também disputado pelos grandes grupos internacionais. Não só para os projetos que instalam no nosso país como também para os levar para carreiras internacionais. O que, se em si é bom, porque dá aos nossos profissionais oportunidades de trabalhar em projetos internacionais, leva a uma maior escassez na oferta de talento no nosso mercado”.

Soluções
Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP – Associação Empresarial de Portugal, uma das principais estruturas empresariais do país, diz ao JE que nesta matéria não se pode nem deve generalizar. Elogia as excelentes instituições de ensino superior portuguesas, que ministram cursos absolutamente necessários, de que são exemplos as áreas da gestão e da engenharia. “Mas — afirma — não tenhamos dúvidas de que há muito a fazer. Assistimos, ainda, a um certo desfasamento entre as qualificações fornecidas pelo sistema de ensino/formação e as qualificações requeridas pelas empresas (…) É preciso garantir hoje que o ensino superior é capaz de desenvolver competências para além das técnicas e acompanhar eficazmente a muito rápida evolução das tecnologias e das necessidades e desafios das empresas”.

Por isso, justifica, já nas propostas do estudo que a AEP realizou em 2019 “(Re)Qualificar para Competir”, cuja reflexão envolveu também instituições de ensino superior, constava a necessidade de “rever e atualizar os currículos, de reforçar a aproximação às empresas e de alargar o âmbito deste ensino, estendendo a sua oferta formativa, em cooperação com as associações empresariais, para além da formação inicial”.

O responsável da AEP defende que em contexto organizacional, “a formação é fator crítico para provocar mudanças duradouras” e dar “resposta às reais necessidades das empresas”, numa conjuntura global cada vez mais exigente e competitiva. Entre as soluções, adianta, está “a adoção de modelos formativos diferentes dos adotados na formação inicial, com um desejável envolvimento das associações”, dada a sua grande proximidade às empresas.

Fundamental, considera ainda Luís Miguel Ribeiro, é o envolvimento de empresas e das associações empresariais com as instituições de ensino superior na preparação (co-definição e co-concepção) dos programas e ações a desenvolver, nomeadamente ao nível da formação de executivos e outra formação especializada. A este nível, Luís Miguel Ribeiro cita experiências bem-sucedidas entre a associação empresarial e a academia, como é o caso da parceria estratégica com a Católica Porto Business School ou com a Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro (UTAD) no Programa Impulso Adultos.

A presidente do ISEG, Clara Raposo, fala de um diálogo continuado entre a academia e as empresas. “Os programas dos cursos e a oferta total de cursos vai sofrendo ajustamentos ao longo do tempo consoante se preveem necessidades de mais skills em línguas, ou de programadores, ou de comunicadores. Contudo, estamos a falar de prever necessidades futuras – e o mundo é incerto. E estamos a falar de pessoas e não de frangos de aviário”.

Na perspetiva de Álvaro Garrido, diretor da Faculdade de Economia de Coimbra, a solução também não está na criação de mais cursos, passa antes pela renovação dos existentes e pela sua flexibilidade. “Incluir nos planos de estudos e perfis de competências as expetativas das empresas é fundamental”, adianta. O professor alerta ainda para outro aspeto de extrema relevância: “Precisamos de conjugar o crescimento sustentado dos níveis de educação, em geral, com as exigências de formação de capital humano”.

Com efeito, nas últimas décadas, Portugal protagonizou um extraordinário crescimento na escolaridade e deu um enorme salto qualitativo nas qualificações da sua população ativa, mas não chega. A sociedade baseada no conhecimento trouxe-nos a necessidade da formação continuada ao longo da vida.

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